BLOQUE ZONA LIVRE em Construção

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

"Passagens da Guerra Revolucionária", por Comte. Che Guevara - Alegria de Pío

Mês Cmte Fidel Castro






Alegria de Pío é um lugar da Província de Oriente, onde nós fomos surpreendidos no dia 5 de dezembro de 1956 pelas tropas da ditadura.

Já não restava de nossas equipes de guerra nada mais que o fuzil, a canana e algumas balas molhadas. Nosso arsenal médico tinha desaparecido, nossas mochilas tinham ficado nos pântanos, em sua grande maioria. Devido a nossa inexperiência , saciávamos nossa fome e nossa sede comendo canas na beira do caminho e deixando aí o bagaço; mas além disso, não precisaram os guardas da ajuda de pesquisas indiretas, pois nosso guia, segundo nós descobrimos anos depois, foi o autor principal da traição, os levando até nós. Tínhamos deixado o guia em liberdade à noite anterior, cometendo um erro que repetiríamos às vezes durante a luta, até aprender que os elementos da população civil cujos antecedentes se ignoram devem ser vigiados sempre que se esteja em zonas de perigo. Nunca deveríamos ter permitido que o nosso falso guia fosse embora.

O companheiro Montané e eu estávamos encostados num tronco, falando de nossos respectivos filhos; comíamos a ração magra -meia linguiça e dois biscoitos- quando soou um disparo; somente uma diferença de segundos e um furacão de balas -ou pelo menos isso pareceu a nosso angustiado espírito durante aquele teste de fogo- se alçava sobre o grupo de 82 homens. Meu fuzil não era dos melhores, deliberadamente tinha pedido assim porque minhas condições físicas eram deploráveis depois de um prolongado ataque de asma suportado durante toda a travessia marítima e não queria que se perdesse uma arma boa em minhas mãos.

Lembro-me que, no meio do tiroteio, Almeida -nessa época o capitão- veio ao meu lado para perguntar as ordens que havia mas já não havia ninguém lá para dá-las. Segundo descobri depois, Fidel tentou em vão agrupar as pessoas no no canavial próximo, ao que havia que chegar, cruzando o caminho que divide o canavial somente. A surpresa tinha sido muito grande, o tiroteio demasiado intenso. Almeida voltou aencarregar-se do seu grupo.

Tinha em frente uma mochila de medicamentos e uma caixa de balas, ambas constituam muito peso para transportá-las juntas; tinha diante de mim o dilema de minha dedicação à medicina ou meu dever de soldado revolucionário, levei a caixa de balas, deixando a mochila para cruzar o espaço que me separava das canas. Lembro-me perfeitamente de Faustino Pérez, de joelhos no caminho que divideo canavial, disparando sua pistola metralhadora. Perto de mim um companheiro chamado Arbentosa, caminhava na direção do canavial. Uma rajada que não se distinguiu das outra, nos alcançou aos dois. Sentium forte golpe no peito e uma ferida no pescoço; dei-me por morto. Arbentosa, vomitando sangue pelo nariz, pela boca e pela enorme ferida da bla querenta e cinco, gritou algo assim como "me mataram" e começou a disparar loucamente pois não se via ninguém naquele momento. Disse a Faustino, dede o chão, "me prejudicaram" (mas mais forte a palvra), Faustino deu-me uma olhada no meio da sua tarefa e me disse que não era nada, mas em seua olhos se lia a condenação que significava a minha ferida.

Fiquei caído, disparei um tiro na direção do monte seguindo o mesmo escuro impulso do ferido. Imediatamente, pus-me a pensar no melhor modo de morrer nese minuto em que parecia tudo perdido. Alguém, de joelhos, gritava que tínhamos que nos render e se ouviu atrás uma voz, que depois soube pertencia a Camilo Cienfuegos, gritando: " Aqui ninguém se rende..." e um palavrão depois. Ponce seaproximou agitado, com a respiração ansiosa, mostrando um balaço que aparentemente lhe atravessava o pulmão. Me disse que estava ferido e lhe manifestei, com toda indiferença, que eu também. Ponce continuou rastejando em direção ao canavial, assim, como outros companheiros ilesos. Por um momento fiquei só, recostado ali esperando a morte. Almeida chegou perto de mim e me deu ânimo para continuar; apesar das dores, o fiz e entramos no canavial. Lá eu vi o grande companheiro Raúl Suárez, com seu dedo polegar destroçado por uma bala e Faustino Pérez vendando-o junto a um tronco; depois tudo se confundia no meio das avionetas que passavam baixo, lançando alguns disparos de metralhadoras, semeando mais confusão entre cenas as vezes grotescas, como a de um robusto combatente que queria se esconder atrás de umas canas, e outro que pedia silêncio entre o tremendo labirinto de tiros, sem se saber bem por que razão.

Formou-se um grupo conduzido por Almeida e no que estávamos também o hoje Comandante Ramiro Valdés, naquele tempo tenente, e os companheiros Chao e Benítez; com a Almeida à cabeça, cruzamos o último caminho do canavial para alcançar um monte salvador. Nesse momento se ouviam os primeiros gritos: "fogo", no canavial se levantavam colunas de fumaça e fogo; embora isto não posso assegurar, porque pensava mais na amargura da derrota e na iminência de minha morte.

Caminhamos até que a noite nos impediu avançar e resolvemos dormir todos juntos, amontoados, atacados pelos mosquitos, torturados pelasede e a fome . Assim foi nosso batismo e fogo, no dia 5 de dezembro de 1956, nas proximidades de Niquero. Assim começou a forja do que seria o Exército Rebelde.

Próxima passagem: À Deriva

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O NASCIMENTO DE UM EXÉRCITO - 6. O destacamento de propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname


Para decidir a hora da insurreiçom, o Comité interprovincial projectava organizar umha última conferência. Foi nessa altura que nos chegou a notícia da volta iminente do Tio Ho, que conseguiu sair das prisons do Kuomintang.

Ao chegar a Pac-Bo, ele escutou o relatório sobre a situaçom e a resoluçom sobre o desencadeamento da guerrilha e, a seguir, reuniu os quadros responsáveis para analisar a situaçom. Sublinhou que a resoluçom adoptada incidia unicamente sobre a situaçom do Cao-Bac-Lange, nom sobre o país no seu conjunto; por outras palavras, ocupávamo-nos com umha parte, abstraindo do todo. Em tais condiçons, fazer eclodir a guerrilha em larga escala nas perspectivas da resoluçom do Comité interprovincial, era ir, fatalmente, ao encontro das grandes dificuldades. No país interior, mais nenguma regiom reunia as condiçons requeridas para nos apoiar: o inimigo poderia reagrupar todos os efectivos contra nós. Do ponto de vista militar, a resoluçom nom correspondia ao princípio da concentraçom das forças: os quadros e o armamento estavam dispersos, faltava umha força de base.

O Tio Ho considerou que mesmo que a etapa do desenvolvimento pacífico tivesse sido ultrapassada, nom tínhamos por esse facto chegado à fase da insurreiçom geral. Limitarmo-nos a actividades puramente políticas já nom bastaria para fazer progredir o movimento; mas desencadear imediatamente a insurreiçom seria colocarmo-nos numha situaçom embaraçosa. Era necessário, portanto, passar do campo político para a luita armada, deixando, no imediato, a acçom política ter ainda a precedência sobre a luita armada.

Era necessário encontrar umha fórmula apropriada para dar novo estímulo ao movimento e foi no decurso dessa reuniom que o Presidente preconizou a criaçom do "Destacamento de propaganda do Exército e Libertaçom" que nom devia passar, de momento, de umha formaçom. Ele tinha por missom mobilizar e chamar o povo ao combate. Mas, para começar, devia ligar maior importáncia ao trabalho político que à luita armada, tendo a missom de propaganda a primazia sobre o combate propriamente dito.

Esta análise da situaçom convenceu-nos a todos, e o novo programa foi aprovado por unanimidade. Foi assim que nasceu o Destacamento de Propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname.

Segundo o método de trabalho que lhe era caro, o Tio Ho orien-tou-nos na elaboraçom das medidas a aplicar: organizaçom do Destacamento para composiçom, recrutamento, abastecimento em armas e víveres, futuras relaçons com as autoridades e as populaçons locais.

Passámos, em seguida, um dia inteiro a elaborar o projecto do plano. Pola noite adiante, continuaríamos a debater os nossos pontos de vista. Já sobre a tarde, o Tio Ho ainda pesava os prós e os contras. Na manhá do dia seguinte, o projecto era submetido à colectividade.

Para desencadear a luita armada, segundo a nova orientaçom, o Tio Ho insistiu particularmente em dous pontos:

- Actuar rápida e resolutamente: um mês após a formaçom do destacamento, este devia ter no seu activo alguns sucessos militares; o primeiro combate devia ser obrigatoriamente umha vitória.

- Em campanha, assegurar boas relaçons entre o destacamento regular e os destacamentos locais, entre o exército e a populaçom. Manter em permanência a ligaçom com o organismo dirigente.

Além disto, o Presidente ligava extrema importáncia aos princípios da clandestinidade. íamos encetar o caminho que ele nos recomendava ainda:

"Nom sejam subjectivos, nom revelem as vossas forças, actuem em segredo, um absoluto segredo. Que o inimigo ignore todo sobre vós. Que ele vos julgue fraco quando sodes fortes. Que de nada suspeite mesmo na véspera de lançarem o ataque."

Foi com o coraçom transbordante de confiança que voltamos ao Comité interprovincial. As ordens fôrom aplicadas com celeridade. Os quadros e o armamento fôrom reunidos imediatamente. O destacamento compreendia, à data da formaçom, trinta e quatro combatentes escolhidos entre os chefes de secçons, chefes de grupos e soldados de elite e que se tivessem distinguido pola sua coragem nos destacamentos armados regionais ou nos grupos de milicianos de choque. A unidade tinha sido também reforçada por alguns quadros que acabavam de terminar os seus estudos militares na China. A partir de entom passavam a existir no Cao-Bac-Lang três tipos de formaçom armados: o destacamento de propaganda constituía o elemento de choque, em volta do qual se agrupavam os destacamentos armados regionais e, depois, os destacamentos de autodefesa paramilitares. Ainda que à escala de guerrilha, estas formaçons actuassem, todavia, em estreita coordenaçom. Recordo-me nitidamente desta característica: foi para mim umha cousa completamente nova que me impressionou muito.

Na véspera da formaçom do Destacamento, recebi as directivas do Tio Ho, transcritas num pedacinho de papel, escondido num maço de cigarros. dous dias depois, o Destacamento de Propaganda começava a aplicá-las, alcançando as suas duas primeiras vitórias em Phay Khat e Na Ngan. O Viet Lap publicou imediatamente o respectivo comunicado. Ao mesmo tempo, o Comité interprovincial lançava um apelo à populaçom, convidando-a a intensificar o seu auxílio ao exército. A influência do Departamento aumentava. Os elementos indecisos começárom a juntar-se-nos. Os traidores começárom a tremer e o inimigo moderou o seu ardor na caça aos militantes. Numerosas organizaçons de base foram postas em actividade e vinhérom aumentar rapidamente os seus efectivos. O movimento subia. A populaçom trazia ao exército cabazes repletos de formas de cereal e bolas de arroz. Em certos sítios, chegavam a oferecer-nos búfalos, bois e porcos. Assistiu-se ao aparecimento de poemas T. T..., do arroz T. T das caixas T. T.... para a compra de armas... (T. T. som as iniciais das palavras vietnamitas "Tuyên Truyên" -propaganda-, com as quais se designava o Departamento).

Um poderoso movimento de partida para a libertaçom ia-se apoderando da juventude, que aumentava rapidamente as nossas fileiras.

De Phay Khat, Ma Ngan, o Destacamento de Propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname marchou directamente sobre a zona Thien Thuat, a fim de se constituir em companhia. Os nossos recrutas, chegados das pequenas unidades regionais, chegárom muito depressa ao centro da convocaçom. Em diversos sítios, os destacamentos locais já tinham os efectivos de umha secçom. Umha parte das armas tomadas ao inimigo foi-lhes distribuída, o que muito agradou à tropa. (Nessa época, dous ou três mosquetes bastavam para despertar o entusiasmo dos combatentes). Todos se preparavam febrilmente, em todos os sectores, para novos combates e reclamava-se o envio de tropas regulares.

Depois de nos termos constituído em companhias, deixamos umha parte dos nossos efectivos em Kim Ma, Tinh Tuc e Phia Mac para a propaganda armada, enquanto o grosso das tropas, para desorientar o inimigo, subia em direcçom da regiom de Dong Mu-Bao-Loc, na fronteira sino-vietnamita. Assim que chegamos ao sector, dirigíamo-nos, em absoluto segredo, à regiom limítrofe das províncias de Cao Bang e Bac Can. Nós pensávamos dirigirmo-nos para o Sul, tam depressa o movimento consolidasse. Polo caminho, a populaçom reservava-nos um acolhimento extremamente caloroso. Em certos sítios, ainda que à escassa distáncia de dous ou três quilómetros do posto, acendiam tochas para vir ao nosso encontro. Estávamos quase na época de Têt. Em certas localidades, a juventude preparara um autêntico festim, colocara mesas e cadeiras nas bermas da estrada e tinha esperado umha noite inteira para nos festejar. No cantom de Houng Hoa Tham, por exemplo, éramos aguardados na floresta por um autêntico acampamento de palhotas, bastante vasto para alojar toda a companhia, com um campo de treino e umha importante reserva de árvores.

Apesar da sua extrema penúria, a populaçom ajudava sem limites o exército da revoluçom. Durante os três dias de Têt, jovens e velhos abandonavam os seus lares para passar a festa connosco. Quando hoje penso nisso, ainda pergunto a mim próprio qual a forma de pagar a dívida que, na altura, contraímos com o povo.

Foi nessa época que os grupos de assalto restabelecêrom as nossas linhas de ligaçom com Thai Neguyon, cortadas pola repressom. Prosseguimos preparativos intensos para marchar para o Sul. Os camaradas Tong e Vu Anh juntárom-se a nós na floresta Tran Hung Dao, para fazer umha visita à tropa e elaborar um plano de marcha para o Sul. Mal nos deixaram, rebentou o golpe de força de 9 de Março. A situaçom evoluía favoravelmente. O Destacamento de propaganda do Exército de Libertaçom do Vietname abandonou as matas para umha marcha, em pleno dia, no vale de Kim Ula. Em cada aldeia, a populaçom, em delírio, tinha arvorado bandeiras vermelhas com a estrela dourada. Sempre me recordarei do espectáculo que entom se ofereceu aos nossos olhos. Todas estas bandeiras vermelhas que tornavam o céu mais vasto e mais azul. Os homens e a natureza como que desabrochados, transfigurados. As primeiras lufadas de independência que nos embriagavam.

Seguidamente, o grosso da companhia dirigiu-se para o Sul, estabelecendo à sua passagem o poder revolucionário, desarmando as guarniçons inimigas e levantando novas unidades.

No Cao-Bac-Lang, a direcçom do Partido fornecera a tempo as directivas para a formaçom do poder popular no campo, o desencadear da guerrilha, e o alistamento de novos recrutas. No dia imediato ao do golpe de força japonês, foram constituídas umhas vinte novas companhias do Exército de Libertaçom. Abríamos, por toda a parte, agências de recrutamento. Perto de Nuoc Hai, alistárom-se voluntariamente mais de três mil jovens. Em toda a regiom do Cao-Bac-Lang os campos formavam umha vasta zona livre.

Nesse preciso momento, no centro Bac Son-Vu-Nhai, as tropas da Salvaçom Nacional revoltárom-se também, inauguravam a guerrilha, instauravam o poder popular e aumentavam os efectivos. Algum tempo depois, as tropas da Salvaçom Nacional e o Exército da Libertaçom operavam a respectiva junçom. A Conferência Militar de Tonquim, realizada na Hieh Hoa, decidia a unificaçom de todas as forças armadas revolucionárias, sob a designaçom de "Exército de Libertaçom do Vietname". A zona libertada foi formada depois, englobando as províncias de Cao Bang, Bac Can, Long Son, Ha Giang, Thai Nguyen, Tuyen Quang e umha parte das províncias de Bac Giang e Vinh Yen.

A situaçom evoluía rapidamente. O movimento contra os japoneses, pola Salvaçom Nacional, subia como umha maré alta. O Congresso nacional do Partido e o Congresso dos Delegados da naçom cedo se passárom a reunir em Tan Trao. Entrementes, ocorreu a capitulaçom do Japom. Rebentou a revoluçom de Agosto. A República Democrática do Vietname nasceu, enfim!

Relato recolhido por Tran Cu.



terça-feira, 5 de agosto de 2008

Mês Fidel Castro - Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu no dia 13 de agosto de 1926

LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de mais de 20 obras, entre as quais De Marti a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina


Fidel Castro, a revolução cubana e a América Latina

por Luiz Alberto Moniz Bandeira*

De Marti a Fidel: a Revolução Cubana e a América LatinaQuando o ditador Fulgêncio Batista, sem mais condições de manter-se no poder, renunciou durante o reveillon de 1959 e, secretamente, fugiu de Cuba para a República Dominicana, não foi só o seu governo que caiu. Todo o Estado cubano se havia desintegrado e 1959 tornou-se um ano realmente novo. Dias depois, centenas de guerrilheiros barbudos, grande parte de guajiros (trabalhadores do campo), sujos, uniformes rasgados, entraram em Havana, sob o comando de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Era o clímax de uma epopéia, iniciada por apenas 16 sobreviventes, dos 82 que desembarcaram do iate Granma, no litoral Cuba, em 2 de dezembro de 1956. Fidel Castro tinha então 25 anos e, durante dois anos, comandou a guerra de guerrilhas, juntamente com seu irmão Raúl Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos, organizando o Exército Rebelde, que destruiu a ditadura dos sargentos Fulgêncio Batista, respaldada pelos Estados Unidos.

A revolução cubana foi o fato político mais poderoso e o que maior impacto causou na América Latina, ao longo do século XX, não por causa do seu caráter heróico e romântico ou porque o regime implantado por Fidel Castro evoluiu posteriormente para o comunismo, mas porque ela exprimiu dramaticamente as contradições não resolvidas entre os Estados Unidos e os demais países da região. Não foram os comunistas que promoveram a revolução cubana, no contexto da na Guerra Fria. Conquanto alguns de seus líderes, como Ernesto Che Guevara e o próprio Fidel Castro, em pequena medida, acolhessem idéias marxistas, eles não pertenciam a nenhum partido comunista e não era inevitável que a revolução cubana se desenvolvesse a tal ponto de identificar-se com a doutrina comunista e instituísse a sua forma de governo. Com razão, o historiador Thomas Skidmore, da Brown University, apontou Cuba como “um estudo clássico do fenômeno nacionalista”, acrescentando que o povo podia ver o caráter autoritário do regime, mas “o real apelo do regime de Castro era o nacionalismo”. Com efeito, a revolução cubana foi autóctone, teve um caráter nacional e democrático, e a implantação de um regime segundo o modelo dos países do Leste Europeu resultou de uma contingência histórica, não de uma política empreendida pela União Soviética, ma, sim, empreendida pelos Estados Unidos que, sem respeitar os princípios da soberania nacional e autodeterminação dos povos, não aceitaram os atos da revolução, como a reforma agrária, e transformaram contradições de interesses nacionais em um problema do conflito Leste-Oeste.

De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina (editora Civilização Brasileira)Em abril de 1959, quatro meses após a tomada do poder em Havana, Fidel Castro esteve em Buenos Aires, a fim de participar conferência do Comitê dos 21, organismo encarregado de estruturar a Operação Pan-Americana, e seu discurso, segundo o então presidente Juscelino Kubitschek, refletiu “melhor do que os demais a tragédia da América Latina”, dada a crueza que ressaltava de suas palavras. Causou “verdadeiro impacto” ao reclamar dos Estados Unidos uma ajuda financeira à América Latina, no valor de US$ 30 milhões. Kubitschek, após conversar com Fidel Castro em Brasília e ter “a oportunidade de conhecer, em profundidade, seu pensamento”, concluiu que ele era “um idealista amargurado, que sofrera na carne as conseqüências do apoio dado pelos Estados Unidos às ditaduras na América Latina”, uma vez que Cuba fora marcada por “longa tradição de tirania” e seu povo, havendo suportado “o garrote do regime de Batista, não conseguia separar a trágica realidade da situação interna do apoio irrestrito de Washington ao opressor do país”.

Ao regressar de Buenos Aires, Fidel Castro passou pelo Rio de Janeiro e fez um discurso na Praça Barão Rio Branco, organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e no qual repetiu basicamente o que dissera em Buenos Aires: “Ni pan sin liberdad ni libertad sin pan”. Lembro-me bem destas suas palavras, pois estava ao seu lado no palanque. E, em Havana, Fidel Castro voltou a reiterar que “la ideología de nuestra revolución es bien clara; no solo ofrecemos a los hombres libertades sino que le ofrecemos pan. No solo le ofrecemos a los hombres pan, sino que le ofrecemos también libertades”. Ao longo do discurso, durante o qual tratou de definir a ideologia da revolução, Castro, após salientar que no mundo se discutiam duas concepções, a que oferecia aos povos democracia e matava-os de fome e a que oferecia pão, mas lhes suprimia as liberdades, afirmou:

“Nosotros nos vamos poner a la derecha, no nos vamos poner a la izquierda, ni nos vamos poner en el centro, que nuestra Revolución no es centrista. Nosotros no vamos poner un poco más adelante que la derecha y que la izquierda. Ni a la derecha ni a la izquierda, un paso más allá de la derecha y de la izquierda”.

Em abril de 1960, quando estive em Havana, acompanhando Jânio Quadros, então candidato à presidência do Brasil, vi Fidel Castro mostrar-lhe um crucifixo que trazia pendurado no pescoço, indicando que não era comunista e que respeitava a Igreja. Mas, um ano depois, em 16 de abril de 1961, após o bombardeio dos aeroportos de San Antonio de los Baños, Santiago e Havana pelos aviões da CIA, Fidel Castro, após compará-lo, com justo motivo, ao ataque pérfido e traiçoeiro do Japão a Pearl Harbor, em 1941, declarou que os Estados Unidos não perdoavam Cuba porque “esta es la revolución socialista y democrática de los humildes, con los humildes y para los humildes”.

Ao fazer essa declaração, Fidel Castro buscou comprometer a União Soviética na defesa de Cuba. Ele jogou com o conflito político e ideológico que então eclodira entre Moscou e Pequim e dividira o Bloco Socialista, pois temia que Nikita Kruchev, na linha coexistência pacífica e em entendimento com John Kennedy, trocasse Cuba por Berlim Ocidental, em prol de melhores relações com os Estados Unidos. A proclamação do caráter socialista da revolução cubana, porém, representou igualmente duro golpe nos dogmas cristalizados por Joseph Stalin e outros líderes comunistas, sob o rótulo de marxismo-leninismo, uma vez que ela fora realizada não por um partido supostamente operário, constituído sob as normas do chamado centralismo-democrático e rotulado de comunista, mas pelo Movimento 26 de Julho, uma organização composta, sobretudo, por elementos das classes médias, que, no curso da guerra de guerrilhas, passaram a incorporar camponeses e trabalhadores rurais, os guajiros, ao Exército Rebelde, em benefício dos quais realizaram a reforma agrária.

De conformidade com a ortodoxia stalinista, Cuba não tinha condições materiais senão para realizar uma revolução agrária e democrática, mediante a instalação de um “governo patriótico”, de união com a burguesia progressista, que se propusesse a impulsionar o processo de industrialização e, libertando o país do domínio imperialista, promover o desenvolvimento econômico e a emancipação nacional. Os dirigentes comunistas, que visitavam Havana, consideravam a revolução em Cuba estranha ao modelo, por eles reconhecido, dado lá não existir um operariado industrial, e julgavam Fidel Castro e seus companheiros um “grupo inexperiente, com formações ideológicas diversas e pouco definidas”, orientados pelo que qualificaram como “marxismo amador, ou melhor ainda, como cubanismo”. Ouvi quando Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do PCB, qualificou Fidel Castro como “aventureiro”, em entrevista à imprensa do Rio de Janeiro, em 1959.

A revolução cubana assim produziu profundas conseqüências na América Latina, onde a tendência das Forças Armadas para intervir, como instituição, no processo político, a partir de 1960, não decorreu apenas de fatores endógenos e constituiu muito mais um fenômeno de política internacional continental do que de política nacional, argentina, equatoriana, brasileira etc., uma vez que fora determinada, em larga medida, pela mutação que os Estados Unidos estavam a promover na estratégia de segurança do hemisfério, redefinindo as ameaças, com prioridade para o inimigo interno, e difundindo, através, particularmente, da Junta Interamericana de Defesa, as doutrinas de contra-insurreição e da ação cívica. Tanto isto é certo que a intervenção das Forças Armadas, a princípio, visou, sobretudo, a ditar decisões diplomáticas, a modificar diretrizes de política exterior, e ocorreu, geralmente, nos países cujos governos se recusavam a romper relações com Cuba. E daí o surto militarista, com a propagação dos golpes de Estado, que tinham como principal fonte de inspiração a Junta Interamericana de Defesa, visando a impedir que outro Fidel Castro surgisse na América Latina.

Fidel Castro foi o mais importante líder da América Latina, no século XX, e o fato de que permaneceu quase meio século no poder, apesar do bloqueio e de todas as pressões, inclusive dezenas tentativas de assassinato pela CIA, representou a maior derrota política que os Estados Unidos sofreram, apesar de seu enorme poderio econômico e militar.


* Luiz Alberto Moniz Bandeira é cientista político, professor emérito da Universidade de Brasília e autor de mais de 20 obras, entre as quais De Marti a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina.


quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Nascimento de um Exército: 5. No sentido da luta armada


Se os ataques lançados polo inimigo tinham reduzido as nossas bases, por outro lado tinham-lhes dada têmpera. Algum tempo depois, em várias regions, o movimento reavivou-se e começou a orientar-se para a luita armada. O Comité interprovincial do Cao-Bac-Lang deu, aos núcleos clandestinos, ordem para se "militarizarem", isto é, para se proverem de armas e muniçons, e intensificarem o treino militar; as actividades militares deviam emparceirar com as actividades políticas. Os núcleos clandestinos receberam, portanto, a ordem de "viver como guerrilheiros", isto é, em alerta permanente, as bagagens ao alcance da mao, prontos a partir ao primeiro sinal.

Os distritos formavam destacamentos armados de sete a doze combatentes, livres de qualquer trabalho de produçom e, onde as condiçons o permitiam, formavam umha secçom. Estas unidades regionais encarregavam-se da propaganda armada, executavam os reaccionários mais perigosos, teciam emboscadas às patrulhas para conservarem o controlo das montanhas e das florestas. Entretanto, para evitar represálias à populaçom, o seu campo de actividade mantinha-se afastado o mais possível das organizaçons de base e, por esse simples facto, achava-se muito limitada.

A nossa "estrada para o Sul" fora cortada em diversos pontos. Nós enviávamos grupo de assalto sobre grupo de assalto para os sectores ameaçados, a fim de apoiar a populaçom local e manter as nossas organizaçons de base, mas sem obter senom resultados parciais. No princípio de 1944, a ligaçom com o delta tornou-se umha necessidade imperiosa. Por ordem do Partido, reagrupamos vários destacamentos armados locais para formar a Secçom da "Marcha para o Sul". Foi decidido avançar no mais absoluto segredo, através da seiva, para restabelecer a ligaçom com as nossas organizaçons de base no sopé do monte Phia Booc.

No nosso caminho, várias aldeias tinham sido arrasadas. A vigiláncia, nos povoados controlados polos postos, era das mais severas. A partir de Kim Ma, a nossa secçom tomou a direcçom do Sul, marchando de noite, descansando durante o dia. O avanço era penoso. Chovia sem tréguas. As águas faziam transbordar os ribeiros, que inundavam os caminhos. Encharcados até aos ossos, detínhamo-nos por vezes nas grutas, onde acendíamos um pequeno lume para nos aquecermos e secar as roupas. Depois, a marcha retomava. Por volta das seta ou oito horas da manhá, procurávamos um local bem abrigado, onde repousávamos das nossas fadigas, estendidos sobre folhas de latánia. Algumhas vezes, para atingir umha das bases, tínhamos de caminhar durante duas ou três noites ininterruptamente, através de aldeias inteiramente controladas por reaccionários, onde a única pista a seguir passava nas proximidades dos postos de guarda. Avançávamos entom com precauçom, evitando o menor ruído, o chapinhar de um passo na lama, o choque de um pau numha pedra.

Após oito ou nove dias de marcha, ultrapassamos Cho Ra e atingimos o ponto de contacto. Junto do monte Phia Borc. Um certo número de militantes que acompanhavam a secçom armada tinham trazido umha pedra litográfica, papel e tinta, para fazer aparecer um jornal ali mesmo, depois da tomada de contacto com as organizaçons de base e depois de consolidado o movimento na regiom e estabelecido o P.C. Se bem que arrasados pola fadiga, ardíamos de entusiasmo; em lugar de repousar, começamos a abater árvores para construir as cabanas; por essa altura, encarreguei o camarada Thank Quang, cuja família se encontrava em Cho Ra, de ir contactar as organizaçons de maior confiança da regiom. Voltou à noite, com tristes notícias; nas aldeias em redor, todas as organizaçons tinham sido desmanteladas e incendiadas numerosas casas de militantes. A populaçom prevenira-o para que se acautelasse, desenroiava-se umha grande busca e os atiradores batiam a floresta. Estabelecemos quartos de sentinela à volta do acampamento provisório e, após umhas horas de sono, retomamos o caminho para Cao Bang. Como nom previra mos a eventualidade de um recuo, tivemos de nos contentar com sopa de arroz no caminho da volta. No fim da viagem, todos nós cairíamos doentes.

Esta grande campanha de repressom causou-nos muitas dificuldades, mas as provaçons temperam os militantes e as massas e inculcam-lhe um espírito de sacrifício muito desenvolvido. Ora essa era precisamente umha das condiçons essenciais da insurreiçom.

No mês de Junho de 1944, o terror branco desencadeado polos franceses atingiu o paroxismo. Todos os dias se ouvia o eco da fusilaria. O povo esperava com impaciência os primeiros tiros da revoluçom. Toda a regiom do Cap-Bac-Lang nom passava de um barril de pólvora prestes a explodir.

No mesmo momento, no plano internacional, o fascismo caminhava para a derrota. Na Europa, após Estalinegrado e a contra-ofensiva geral do Exército soviético, os Aliados tinham aberto a segunda Frente. No Pacífico, a iniciativa das operaçons tinha escapado das maos dos japoneses, cujas bases navais mais importantes no ultramar caíam umhas após outras.

No princípio de Julho de 1944 deu-se a queda do Governo de Pétaín. De Gaulle reentrava em França na esteira das tropas anglo-americanas e formava o novo Governo. Na Indochina, esta evoluçom da situaçom acabou de cavar as contradiçons entre fascistas japoneses e colonialistas franceses. Impunha-se a perspectiva de um golpe de força nipónico.

O movimento revolucionário ganhava terreno por todo o país. A organizaçom da Liga Viet-Minh alarga-se de dia para dia. A opiniom pressentia e desejava umha grande convulsom.

Cerca do fim de Julho de 1944, o Comité interprovincial de Cao-Bac-Lang convocou umha conferência de quadros a fim de discutir o problema da insurreiçom armada. Todos os responsáveis do Sector estavam presentes. Ao passar em revista os nossos efectivos, podíamos constatar que os esforços dos imperialistas nom tinham sido muito eficazes: todos os nossos dirigentes tinham podido escapar ao terror branco.

A conferência desenrolou-se numha vasta gruta, em plena selva. A sala de reunions tinha sido arranjada com cuidado: arco de triunfo, grande mastro para a bandeira, filas de mesas para as delegaçons, camarata e refeitório. Em redor, à passagem de cada garganta do caminho, tinha-se disposto umha tríplice rede de sentinelas; ao lado dos militantes Man locais, alguns destacamentos armados tinham vindo dos distritos para reforçar o dispositivo de segurança. Após meses de umha luita encarniçada, meses passados a roçar pola morte, encon-trávamo-nos, enfim, reunidos para debater o problema que mais profundamente nos tocava. Pode calcular-se a nossa alegria. Nela se misturava um pouco de orgulho, orgulho polo nosso povo e polo nosso Partido; era de toda a evidência que a repressom nunca poderia bater a revoluçom.

O relatório político apresentado à conferência achava que "a conjuntura nacional e internacional e a situaçom do movimento no Cao-Bac-Lang tinham criado as condiçons para o desencadeamento da guerrilha nas três províncias".

As discussons que se seguírom chegárom rapidamente à resoluçom de fazer eclodir a insurreiçom o mais cedo possível, para corresponder à tensom criada polo "terror branco". Todos os delegados aclamárom esta decisom.

No dia seguinte, a conferência discutiu o sentido da palavra "insurreiçom" e decidiu substituí-lo por "desencadeamento da guerrilha", a fim de evitar equívocos na interpretaçom. Foi fixado um prazo para ultimar todos os preparativos.

Segundo o plano do Comité interprovincial, todas as regions deviam pôr de pé umha nova promoçom de chefes de destacamentos e de comissários políticos para atingir o montante previsto. Por outro lado, importava formar um certo número de quadros de reserva: todos os militantes clandestinos dos dous sexos, se a saúde lho permitia, deviam fazer um estágio para esse efeito. Incumbia ao Comité interprovincial organizar cursos de formaçom de chefes de secçons e de comandantes de companhia.

Abrimos, de urgência, nas regions sob o nosso controlo, cursos políticos em intençom dos militantes locais. Estes militantes eram escolhidos entre os elementos mais seguros e estimados da populaçom. Preparámo-los tanto para a guerrilha contra os japoneses como para a administraçom, a fim de que, no momento preciso, eles instaurassem o poder popular provisório.

As diversas localidades deviam aplicar o plano do Comité interprovincial para o recrutamento dos militantes de choque nas unidades de guerrilheiros. Estes homens repartiam-se em dous grupos: o primeiro, recrutado imediatamente ao momento da eclosom da guerrilha, enquanto que o outro constituiria o corpo da reserva. Divididos em grupos e secçons, recebiam um treino acelerado e deviam conservar-se prestes a entrar em campanha de um momento para o outro.

Era preciso, urgentemente, comprar e fabricar mais armamento, granadas em primeiro lugar. Cada espingarda de repetiçom devia conter cinqüenta cargas. As reservas de víveres, das quais umha parte composta de alimentos secos, deviam permitir resistir durante seis meses, para passar o período intercalar entre a apanha de arroz do ano em curso e a de milho do ano seguinte.

Os Comités de distrito deviam reorganizar a rede clandestina de ligaçom, os serviços de batedores, e ensinar à populaçom algumhas noçons sobre o trabalho de informaçons.

Desde há muito tempo que nós ensináramos a populaçom a criar o vácuo face ao inimigo e, em diversas localidades, tinham-se cavado silos para esconder os rebentos do arroz. Só nos faltava generalizar esta prática em todos os cantons, para bem acautelar as reservas de víveres. No que di respeito à evacuaçom da populaçom, insistíamos neste princípio: enquadrar e organizar sempre os evacuados de forma a que podam, ao mesmo tempo, prosseguir os trabalhos agrícolas e dar umha ajuda eficaz na frente.

A fim de estimular o movimento e preparar o desencadear da guerrilha, foi dada ordem aos destacamentos armados para repelir todos os ataques e garantirem-nos assim o controlo das florestas e das montanhas.

Todos os quadros e membros do Partido se lançárom desvairadamente nestes preparativos, desenvolvendo umha actividade intensa mas silenciosa, característica de toda a actividade clandestina. Viam-se velhas vender quase todo o que possuíam para comprar armas para os filhos. Em diversos distritos, velhos adoptárom resoluçons intimando os jovens dos dous sexos a alistarem-se no exército, ao primeiro apelo de mobilizaçom. O povo vivia na esperança e na ánsia febril das vésperas da insurreiçom.

Os nossos quadros organizavam reunions públicas para explicar à populaçom que o desencadear da guerrilha nom implicava forçosamente numha vitória fulminante, que era preciso contar com sacrifícios e, localmente, com alguns reveses de momento. Depois da eclosom da guerrilha, esperavam-nos muitos perigos e provocaçons. Todo este trabalho de explicaçom foi muito bem conduzido.

Setembro de 1944!

Terminava a colheita.

O plano dos preparativos tinha-se cumprido em grande parte. Já tínhamos aberto fogo em várias localidades. A atmosfera era de tensom. Todos aguardavam...

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Che Guevara: A consciência do homem no centro da transformação da sociedade

“A revolução se faz através do homem, mas o homem deve forjar dia-a-dia seu espírito revolucionário”.

Che Guevara, O socialismo e o homem em Cuba[1].

Esse artigo é uma contribuição ao estudo do pensamento de Che Guevara acerca do papel do homem na transformação histórica. Seus escritos salientam que a construção do socialismo não pode avançar somente pelas transformações no modo de produção, na base econômica. E ressalta que, “Para construir o comunismo, simultaneamente com a base material tem que se fazer o homem novo”.(GUEVARA, 2005: 51) Sua concepção elucida, sobretudo, o papel do homem como sujeito da transformação histórica, entendido como ser social que transforma a si mesmo concomitantemente com a transformação da sociedade.

A temática do ‘homem novo’ é discutida por Che Guevara em vários artigos e discursos. Mas é especialmente num texto intitulado: O socialismo e o homem em Cuba, que as premissas fundamentais de sua concepção sobre essa temática aparecem de maneira mais elaborada:

Acredito que o mais simples é reconhecer sua qualidade de não-feito, de produto não acabado. As taras do passado são transmitidas, no presente, na consciência individual e há necessidade de se fazer um trabalho contínuo para erradica-las. (...) é necessário que se desenvolva uma consciência na qual os valores adquiram categorias novas. A sociedade em seu conjunto deve transformar-se em uma gigantesca escola. (GUEVARA, 2005: 50-51)

Na passagem citada acima, Che elucidou em princípio, três elementos centrais. Primeiro, ele afirma que a construção do ‘homem novo’ não confere um processo finalizado, nem poderia, já que a construção do novo homem se dá concomitantemente às transformações do modo de produção. Ou seja, junto com a nova base econômica, com o desenvolvimento das forças produtivas e as novas relações de produção, deve-se ir desenvolvendo a consciência de um homem comunista.

Segundo, seu pensamento elucida que a transição é marcada pelo antagonismo e conflito entre as novas relações sociais que subsistem ao mesmo tempo com as antigas taras do capitalismo. No socialismo deve-se suprir o legado da velha sociedade, negá-la e superá-la. Os mais terríveis adversários para a conscientização das massas, são a ambição demasiada e os hábitos egoístas do capitalismo; a força do costume individualista burguês, que busca satisfazer apenas interesses individuais. Esse legado é o maior inimigo da nova sociedade, um gigantesco oponente no processo de construção do ‘homem novo’ e da sociedade socialista. Che explica esse processo, mediante o exemplo de uma pessoa que se recupera de uma enfermidade:

É como um mal que tivera inconscientemente uma pessoa. Quando acaba o mal, o cérebro recupera a claridade mental, mas os membros não coordenam bem seus movimentos. Nos primeiros dias, após sair do leito, o andar é inseguro e pouco a pouco vai adquirindo a nova segurança. É neste caminho que estamos. (GUEVARA, 2005: 22).

Nesse trecho Che Guevara diz que a estrutura social de um regime em transição possui diversos defeitos e não está inteiramente liberta das seqüelas herdadas da antiga sociedade. Essa fase de transição é em sua essência contraditória, pois, traz consigo o conflito direto entre o novo e o velho que permanece.

Quanto à terceira questão, Guevara ressalta a necessidade de trabalhar a consciência de cada indivíduo para que adquira novos hábitos e valores. Sua concepção atenta que o homem deve sobrepujar suas ambições individualistas burguesas e em favor dos interesses coletivos, que representem verdadeiramente todo um grupo e não interesses particulares.

Nós não podemos estimular e sequer permitir atitudes egoístas nos homens, se não quisermos que os homens sigam o instinto do egoísmo, da individualidade; (...) O conceito de uma sociedade superior, pressupõe um homem desprovido desses sentimentos, um homem que tenha subjugado esses instintos. (CASTRO apud FERNANDES, 1979: 154).

Fidel compartilha das mesmas convicções que Che. Essa citação repousa sobre a análise da necessidade de sobrepor aos homens, novos sentimentos, valores e ideais que contemplem o coletivo. Isso implica que o homem que veio de uma sociedade individualista deve alcançar um alto grau de consciência social, em outras palavras, ele deve estar impregnado de sentimentos de amizade, fraternidade, compreensão, etc. Che salienta: “Deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro está guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade.” (GUEVARA, 2005: 62). Nesse sentido, o comunismo constitui uma sociedade de irmãos. O pensamento de Che Guevara defende o valor do humanismo, do homem que compreende e cumpri seu compromisso e dever perante a sociedade em construção e transformação.

O cubano Fernando Martinez Heredia, em sua obra Ché, el socialismo y el comunismo, afirma que: “En la concepción del Che la conciencia es la palanca fundamental, el arma para lograr que las fuerzas productivas y las relaciones de producción sociales dejen de ser medios para perpetuar la dominación, como era en el capitalismo”. (HEREDIA, 1989: 70) E Luiz Bernardo Pericás, em sua tese, Che Guevara e o debate econômico em Cuba, acrescenta que: “O importante seria, portanto, transformar esse homem individualizado no homem socialista, que precisaria da comunidade para desenvolver sua individualidade”.(PERICAS, 2004: 170)

A concepção de Guevara retoma o pensamento de Marx, que conforme seus estudos, a consciência não é pura, ela é influenciada pelo meio social, pela relação dos homens com outros homens. “A consciência é, antes de tudo, mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência de uma interdependência limitada com as demais pessoas e coisas que estão situadas fora do indivíduo que se torna consciente”.(MARX; ENGELS, 2004: 23) A consciência é em sua origem um produto social, nascido das relações humanas, ou seja, do seu meio sensível mais próximo. Partindo dessa afirmação exposta por Marx, Che argumenta em favor de uma transformação da consciência desse homem que vem do capitalismo, mediante a produção da vida material, por meio de suas relações sociais com outros homens, atuando em sociedade.

O homem socialista aparece para Guevara como uma superação dialética do homem capitalista. É a negação do homem alienado pelas relações de produção regidas pelas leis do Capital. As características desse homem estranhado foram bem colocadas por István Mészáros: “O “verdadeiro homem” – a “verdadeira pessoa humana” – não existe realmente na sociedade capitalista salvo em uma forma alienada e reificada na qual encontramos ele como “trabalho” e “capital” (propriedade privada) opondo-se antagonicamente.” (MÉZÁROS, 2006: 106).

Portanto, é importante elucidar que Guevara segue a concepção marxiana que rejeita a idéia de que as características e os valores dos homens são dados, fixados pela natureza humana. Dessa maneira, “o homem não é, ele se torna”, pela produção e reprodução da sua atividade material. Marx parte do pressuposto ontológico que o homem é uma parte específica da natureza[2]. E assim, a consciência do homem está em revolução constante, por meio de ações práticas, que estão estreitamente ligadas à sua atividade. Cabe aqui citar novamente uma passagem clássica de A ideologia Alemã: “Os homens ao desenvolverem sua produção material e relações materiais, transformam, a partir da sua realidade, também o seu pensar e os produtos do seu pensar. Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência”.(MARX; ENGELS, 2004: 52).

É essa ação humana, do homem entendido como “ser social transformador” que modifica as condições objetivas, que muda a realidade concreta, que muda as relações de produção e reprodução. Portanto, mediante o antagonismo existente entre a classe burguesa e proletária, as contradições das relações de produção e das forças de produtivas e o malogro do Estado dominante, os homens transformam a sociedade, a base econômica e concomitantemente seu pensamento, suas idéias, ou seja, sua consciência também ganha nova forma.

Se o homem é sujeito da transformação histórica[3], a revolução proletária, só pode se concretizar como um ato consciente. Essa condição parte de uma premissa fundamental do socialismo científico, exposta por Engels:

A própria existência social do homem, que até aqui era enfrentado com algo imposto pela natureza e a história, é, de agora em diante, obra livre sua. Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na história, colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir de então, ele começa a traçar a sua história com plena consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade. (ENGELS, 2003: 65)

Sobre essa importante problemática em discussão, Michel Löwy acrescenta que: “A especificidade histórica da revolução proletária – não como um ato único, mas como processo permanente que conduz da luta pelo poder à instauração do comunismo – é que ela é, pela primeira vez, um empreendimento humano plenamente consciente.” (LÖWY, 2003: 37).

O entendimento dessa premissa é extremamente importante para a compreensão da ênfase dada por Che Guevara à construção de uma nova consciência. Assim, a construção do socialismo, negação e superação do capitalismo, só é possível por meio da atuação consciente de um ‘homem novo’. O homem socialista transforma a natureza, a sociedade e a si mesmo num plano que almeja como fim último, sua plena libertação como ser social.

Verificamos então que, Che Guevara ressalta em seus estudos, o papel decisivo da ação consciente e organizada do homem para o desenvolvimento do projeto socialista. Sem o ‘homem novo’, uma nova sociedade não pode surgir. Novas idéias e valores são fundamentais para a construção de uma nova sociedade, que somente dessa forma pode avançar no processo de emancipação do homem, e romper definitivamente as correntes da alienação.

______________

[1] Trata-se de um texto dirigido a Carlos Guijano, do semanário Marcha, Montevidéu, Uruguai, 12 de março de 1965.

[2] “Na visão de Marx o homem não é nem “humano” nem “natural” apenas, mas ambas as coisas: isto é, ‘humanamente natural” e “naturalmente humano”, ao mesmo tempo. Ou ainda, num nível mais elevado de abstração, “específico” e “universal” não são opostos entre si, mas constituem uma unidade dialética. Ou seja, o homem é o “ser universal da natureza” somente porque ele é o “se específico da natureza, cuja especificidade singular consiste precisamente em sua universalidade singular, em oposição à parcialidade limitada de todos os outros seres da natureza.” (...) O “ser-por-si-mesmo da natureza do homem” marxiano (...) não é por natureza, nem bom nem mau; nem benevolente, nem malevolente; nem altruísta nem egoísta; nem sublime, nem bestial etc.; mas simplesmente um ser natural cujo atributo é: a “automediação”. Isso significa que ele pode fazer com que ele mesmo se torne o que é em qualquer momento dado – de acordo com as circunstâncias predominantes (...).” (MÉSZÁROS, 2006: 19 – 151).

[3] Sobre essa questão, nunca é demais citar Marx, em O dezoito brumário de Louis Bonaparte: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segunda a sua livre vontade; não a fazem sob circunstância de sua escolha, mas sob aquelas circunstâncias com que defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.” (MARX, 2000: 15).

por CARLOS BATISTA PRADO