BLOQUE ZONA LIVRE em Construção

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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

- A ESQUERDA NO LIMIAR DO SÉCULO XXI -

Setembro, mês Amílcar Cabral




— um livro importante de Marta Harnecker

Por Miguel Urbano Rodrigues




Há muito que não lia um livro que me empurrasse para uma meditação tão profunda e complexa. Mas não é fácil definir a impressão por ele produzida. A palavra assombro talvez seja adequada. Não esperava nada daquilo quando iniciei a leitura. O desafio, entretanto, figura no titulo: "Haciendo posible lo imposible — La Izquierda en el umbral del siglo XXI " (1)

Como definir o gênero da obra? Trata-se simultaneamente de uma reflexão sobre acontecimentos da história contemporânea; de um ensaio político; e também de um manual para a acção revolucionária. O conteúdo está à altura do título. Na capa figura uma informação incomum: versão preliminar.

Porquê? A autora explica na introdução: esta edição é o resultado de diferentes versões que incorporaram ideias e sugestões de amigos e companheiros. Admite que da ampliação e aprofundamento dos temas tratados possa resultar «uma obra colectiva de grande envergadura e utilidade para a militância, tarefa a empreender em Cuba, onde estão as melhores fontes e condições para realizar esse trabalho». Em determinado «momento — esclarece — colocou-se-me o dilema de prosseguir durante uns anos aprofundando e ampliando o trabalho ou publicá-lo no estado atual, como um trabalho preliminar, inacabado, que servisse de instrumento para provocar o debate e me permitisse receber contribuições de muita gente, de muitos militantes que talvez não estejam dispostos a escrever, ou não saibam como fazê-lo, mas disponíveis com prazer para a discussão de um material já estruturado. Acabei, finalmente, por me inclinar para esta ultima opção e isso é o que apresento aqui, esperando poder publicar algo mais definitivo dentro de um ou dois anos. Numerei os parágrafos para facilitar as correções e sugestões». São 774 os parágrafos deste livro preliminar, simultaneamente ambicioso e modesto.

Marta Harnecker (MH) afirma que o seu livro diz respeito «à esquerda latino-americana e aos seus desafios atuais». Mas o seu trabalho transcende essa meta: interessa a toda a humanidade progressista, sem distinção de continentes, nacionalidades e opções partidárias.

A Primeira Parte é uma síntese de acontecimentos importantes que tiveram peso na história da América Latina (e não só ) desde a vitória da Revolução Cubana.
Na Segunda Parte, a autora procura iluminar o mundo da transição do milénio tal como o vê e sente no âmbito da revolução técnico-cientifica instrumentalizada pela globalização imperial e pela imposição do neoliberalismo como sistema hegemónico num contexto em que o controlo da informação proporciona um poder imenso.
Na Terceira Parte MH reflete sobre a posição em que se encontra a esquerda, mergulhada numa crise teórica, programática e orgânica. Assumindo a herança de Marx e reivindicando a atualidade do seu pensamento, a autora aborda a questão fulcral de uma alternativa ao neoliberalismo. Com modéstia, traz ao debate em torno da esquerda algumas ideias que lhe permitam reorganizar-se e enfrentar em melhores condições os grandes desafios do século XXI.

A palavra esquerda é em si mesma —ela não o desconhece — uma fonte de equívocos. Mas não há outra tão breve e útil para o debate que possa englobar o conjunto de forças e cidadãos progressistas que, a nível planetário, condenam a exploração do homem, repudiam o neoliberalismo e a sacralização do mercado e rejeitam o projecto de sociedade hoje imposto à humanidade.

Perguntará o leitor do "Avante!", não sem motivo, onde está aquilo que diferencia este livro de dezenas de outros sobre a mesma temática?

Em primeiro lugar no poder e na técnica da comunicação. A reflexão de MH sobre o passado recente e as sínteses a que procede bem como a muito cautelosa meditação em torno dos caminhos a percorrer (na busca de respostas à pergunta que fazer?) não são acadêmicas. Um dos segredos da autora consiste na fórmula que lhe permite utilizar uma linguagem extremamente simples, acessível a trabalhadores sem cultura para tratar temas muito complexos. Ela demonstra mais uma vez que as grandes questões que condicionam o futuro da humanidade podem ser tratadas, com rigor metodológico e alto conteúdo, como se fossem assuntos da vida quotidiana.
A estrutura do texto é inabitual, por simples. Impressiona a secura da linguagem. O discurso, quase sem imagens, é despojado de metáforas, frio na forma. O estilo está, afinal, na sua aparente ausência.
Outra das originalidades do livro é a forma como MH utiliza a documentação: No espaço de 143 páginas maneja uma bibliografia torrencial. Evitando sempre que possível intervir de maneira ostensiva, evitando interpretações subjectivas, ela transcreve, em centenas de parágrafos, trechos de diferentes autores que ora informam sobre a história, ora clarificam grandes problemas em debate, ora contribuem para uma melhor iluminação da sinuosidade das estratégias neoliberais, ora ajudam o leitor a caminhar pela sua mão no terreno movediço da procura de alternativas, ora o mergulham num mundo de indagações sobre a idéia de revolução, as relações entre organizações de vanguarda e o movimento popular e as motivações e formas da militância .

A seleção dos autores e dos trechos transcritos é obviamente fundamental no desenvolvimento desta obra atípica. Mas isso não significa que MH esteja sempre de acordo com as opiniões que cita. Com alguma freqüência servem para evidenciar discordâncias. Na fusão do que dizem autores muito diferentes e do que ela, MH, vai tentando colocar no tabuleiro em que as ideias são movidas como peças de xadrez, o livro adquire, pouco a pouco, uma estrutura sólida, torna-se lição e projecto.

MH confessa na Introdução que as leituras feitas para aprofundar os temas, em vez de a tranquilizarem a foram angustiando cada vez mais. O cepticismo e o catastrofismo da maioria dos historiadores e cientistas sociais contemporâneos tendem a apagar a esperança e a conduzir ao desespero, ou pelo menos a uma atitude de passividade como a de Eric Hobsbawm, um grande historiador que olha hoje para o mundo atual como se este fosse a estrela Sirius.

O leitor já terá compreendido que o livro de MH é polêmico do começo ao fim. Não vejo nisso defeito, mas uma virtude. Estamos, para mal da humanidade, pouco habituados a que a maioria dos intelectuais, num tempo dominado pelo poder da sociedade informacional (2), cultive a virtude revolucionária da autenticidade.

Talvez por isso mesmo, a Terceira Parte do livro, estuário natural das duas anteriores, é simultaneamente a mais importante e de certa forma a sua justificação, embora tenha sido a mais dolorosa para a autora e a mais difícil, porque a esquerda, no limiar do século XXI não se encontra em boas condições para enfrentar os grandes desafios resultantes da hegemonia desumana do neoliberalismo e do pensamento único. Essa esquerda, perplexa (e de fronteiras fluidas) tem pouco de gratificante a oferecer, e naquilo que pede — a revolução das mentalidades — esbarra em obstáculos mal estudados e em tendências imobilistas enraizadas.

MH não acredita que se possa compreender o mundo contemporâneo e partir daí para a busca de alternativas viáveis sem que a análise da realidade recorra ao instrumental cientifico de Marx não apenas como sociólogo e economista, mas sobretudo como historiador. Responsabilizar o marxismo pelo que aconteceu na URSS como faz a propaganda neoliberal é — sublinha — um absurdo tão grande como responsabilizar uma boa receita de cozinha quando o pudim se queima no forno.

Ninguém melhor do que Marx, insiste, elaborou uma critica tão profunda e acertada do capitalismo da sua época, ninguém como ele «foi capaz de vislumbrar para onde caminhava a humanidade submetida às relações capitalistas de produção». De certa maneira, ele «previu com um século de antecipação o processo de globalização que o mundo está a viver hoje».

Nas páginas de «La Izquierda en el umbral del siglo XXI», MH ilumina bem o caráter monstruoso do projecto neoliberal e do funcionamento das engrenagens de uma sociedade concebida para minorias onde o poder informacional desempenha um papel decisivo. Mas vai muito mais fundo do que o fizeram recentemente autores como Ignacio Ramonet e Viviane Forrester em livros de grande êxito editorial.

Porquê?

Ela não escreve como espectadora angustiada. A sua perspectiva é a de alguém que dedicou a vida ao trabalho militante da transformação revolucionária da sociedade. Não pode assim permanecer apenas no terreno do diagnóstico da crise civilizacional.

Creio que comunistas e progressistas de muitas tendências vão ler com emoção — discordando muitas vezes, porque o livro, repito, é sempre polêmico e desafiador — o que ela escreve sobre temas como os instrumentos políticos adequados aos novos desafios, os diferentes tipos de militância, o centralismo democrático na era neoliberal, os espaços para debate, a democracia nos partidos revolucionários, os quadros de direção, a relação entre partido e sindicatos e partido e massas, e os desafios no terreno eleitoral e na esfera institucional.

Incluo-me entre aqueles que consideram ser hoje muito mais difícil a opção revolucionaria do que noutras épocas, ao longo dos últimos dois séculos, porque tanto a atual geração como as próximas tem consciência de que não serão protagonistas de rupturas sociais que concretizem os ideais do socialismo.

Num encadeamento de idéias e factos fascinante, movendo-se de Marx a Fidel, de Lenine a Gramsci, de sociólogos da esquerda contemporânea a teóricos do neoliberalismo, entre as vitorias de movimentos revolucionários e derrotas do presente, MH, usando a palavra como pá e picareta de uma arquitetura simultaneamente simples e elaborada, empurra-nos sempre para o palco do grande desafio à imaginação e ao trabalho político: o que fazer ?

Não traz naturalmente propostas de soluções. Chama a atenção para muitas questões esquecidas ou subestimadas, ajuda a refletir na busca de caminhos, o que é muito, até porque não carrega certezas.

Nas últimas páginas recorda palavras de um grande revolucionário por as julgar adequadas à compreensão das dificílimas lutas que as forças progressistas terão de travar na próxima década: «para o verdadeiro revolucionário, o maior perigo, talvez o único, é exagerar o revolucionarismo, ignorar quais são os limites em que métodos revolucionários são adequados e eficazes». São de Lenine essas palavras, de enorme atualidade não obstante o contexto ser muito diferente daquele em que foram proferidas.

A nossa época é de desalento e confusão, de esperanças frouxas. Por isso mesmo é preciso ter sempre presente que as reformas pela via institucional não podem resolver problemas que exigem soluções revolucionárias. Mas com a atual relação de forças é também indispensável estar consciente de, perante a impossibilidade de assalto ao poder pela via insurrecional, não podemos abdicar da luta por reformas cujo conteúdo e alcance são incompatíveis com a lógica da engrenagem neoliberal.

Valorizando experiências muito importantes na área do Poder Local em cidades governadas por partidos de esquerda, MH alerta-nos para o trabalho pouco lembrado mas criador, que se pode desenvolver— a nível nacional — entre o terreno do legal e do ilegal, num campo que define como alegal, isto é, que abrange iniciativas que não são legais, mas também não são ilegais .


O livro de Marta Harnecker é sobretudo dirigido às esquerdas latino-americanas; mas tem, repito, valor universal. O belo antetítulo é esclarecedor. Os progressistas de todos os continentes compartilham o objectivo: tornar possível o impossível. Todas as revoluções orientadas para a construção de uma sociedade sem explorados têm de lutar contra o impossível aparente.

Será positivo, creio, que o livro de Marta Harnecker seja lido pela gente progressista de Portugal e que da terra do 25 de Abril lhe cheguem também sugestões que a ajudem a transformar em definitiva a versão preliminar .

Uma revolucionária chilena

Marta Harnecker é uma revolucionária de larga trajetória. Tornou-se famosa no final dos anos 60 quando, jovem, publicou um livro, "Os conceitos fundamentais do Materialismo Histórico" que cumpriu na América Latina o papel que a obra de Politzer desempenhou na Europa. Até hoje vendeu aproximadamente um milhão de exemplares (a editora Siglo XXI lançou 5l edições).
MH foi uma grande divulgadora do marxismo na América Latina. Muita gente que, pela complexidade do texto, resistia a ler "O Capital" sentiu-se atraída para o comunismo pela mão de Marta. O seu nome andava de boca em boca durante o governo da Unidade Popular. Na época ela militava no Partido Socialista (uma organização marxista que não se assemelhava minimamente à social democracia européia).
Não a encontrei nessa época no Chile. Creio que me parecia então um pouco esquerdista. Não lera com suficiente atenção os seus trabalhos. Somente vim a conhecê-la agora, em Havana, onde dirige o Centro de Investigações Memória Popular Latino-americana (MEPLA), uma ONG mobilizada para a recuperação da memória nevoenta de um continente imperializado. MH reside em Cuba desde o golpe de estado de Pinochet em l973. Chilena de origem alemã é uma mulher alta, loura, com uma figura elegante e uma distinção natural incomum. Não perdeu o doce sotaque chileno.
Conheço poucas pessoas que vivam como ela de modo tão absorvente para a transformação revolucionaria da vida. E, contudo, ela o faz na recusa de tudo o que possa desumanizar a maravilhosa aventura da existência individual. "O objectivo da revolução social — recorda — não é somente lutar para sobreviver, mas transformar a forma de viver". Por isso mesmo considera indispensável penetrar «no mundo da moral e do amor, a transformação directa e quotidiana do modo de viver, pensar e sentir».
Fazendo da teoria pratica, MH é uma pessoa realizada também no plano afetivo. Seu marido, Manuel Piñeiro — o famoso comandante Barba Roja da Sierra Maestra, há dias falecido num desastre de viação, era uma personagem carismática da Revolução Cubana. Tem uma filha de l8 anos, Camila, que tornou sua a mundividência dos pais .
Psicóloga, autora de vídeos originais sobre experiências comunitárias em Cuba, no Brasil, na Venezuela e no Uruguai, Marta Harnecker aparece aos leitores como uma socióloga não acadêmica que faz da militância, como intelectual revolucionária, um acto de coerência e de amor, no grande combate que deve ser a vida.

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(l) - Editado pelo Centro de Investigaciones Memoria Popular Latinoamericana; La Habana, Cuba, l998
(2) - A expressão sociedade informacional parece ter sido criada pelo sociólogo espanhol Manuel Castells, (La Era de la información: la sociedad real, vol I, Alianza Ed, Barcelona) repetidamente citado por MH. A sociedade informacional seria uma forma especifica de organização social na qual a geração, o processamento e a transmissão da informação se convertem nas fontes fundamentais da produtividade e do poder.


«Avante!» Nº 1269 - 26.Março.98

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Carta del Che Guevara à Armando Hart Dávalos

Setembro, mês Amílcar Cabral





Com o propósito de colaborar com os estudos sobre o movimento revolucionado no Brasil e sem perder o horizonte da luta internacionalista. A "Carta do Cmte. Che Guevara à Armando Hart Dávalos", significa a constante preocupação desse revolucionário, atualíssimo, com o estudo e a cultura marxista para a vanguarda do povo.

Che, com o senso crítico, sempre alerta, nos mantém vivos, atentos a dinâmica do pensamento revolucionário contra qualquer dogmatismo ou ortodoxia, que possam limitar a condição pensante e dificultar a condição indivisa do pensamento na sociedade.

Prova disso, é a clareza que tem sobre a inconveniente postura dos métodos antimarxistas impostos na URSS. Comunista que é comunista, nega-se a manipular, a aviltar a sociedade ou impedir que os indivíduos pensem. A melhor arma que os marxistas tem é o esclarecimento, o questionamento, o senso crítico, a desalienação da sociedade; aos comunistas interessa uma sociedade atuante e culta. Ter medo do questionamento, da participação popular; é não ter uma postura revolucionária, quem deve temer a reflexão são os capitalistas e não os comunistas. Nossa mais humana ferramenta de emancipação da sociedade é a dialética, e esta não é propriedade de ninguém, tal como a sociedade que queremos construir, a sociedade socialista, onde a classe trabalhadora se emancipa do jugo da ditadura burguesa de mercado, e faça conquistar a liberdade, forjando um homem novo; como disse José Marti: "Ser culto é o único modo ser livre".

Clique no título e bons estudos: "Carta del Che Guevara à Armando Hart Dávalos"

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Passagens da Guerra Revolucionária - Combate de "Arroyo del Infierno"

Setembro, mês Amílcar Cabral






Contada, por Cmte. Ernesto Che Guevara

Fidel calculava que o exército viria a nossa procura e que mais ou menos nos localizaria; decidiu preparar nesta região a emboscada que servisse para capturar alguns soldados inimigos. Consequentemente com isso distribuiu as pessoas.

Na madrugada do dia 22, se ouviram alguns disparos isolados pela zona do rio Palma Mocha e isto nos incitou a manter ainda em melhores condições nossa linha; a cuidar-nos mais e a esperar a iminente presença da tropa inimiga.

Devido a que se supunha que estavam os soldados perto, não houve nem café da manhã nem almoço. Com o camponês Crespo tínhamos descoberto um ninho de galinhas e racionávamos o uso que fazíamos dos ovos deixando um, como é habitual, para que seguisse pondo. Esse dia, em vista dos tiros escutamos à noite, Crespo decidiu que deveríamos comer o último ovo, e assim o fizemos. Era meio dia quando observamos uma figura humana em uma das choupanas, pensamos no primeiro momento que tinha desobedecido a ordem de não se aproximar às casas algum dos companheiros. Porém, não era assim; um dos soldados da ditadura era o explorador da choupana. Apareceram depois até seis, e logo se foram,ficando três à vista; pudemos observar como o soldado de guarda, depois de olhar todos lados, afastou umas ervas, as pôs nas orelhas numa tentativa de camuflagem, e se sentou à sombra tranquilamente sem apreensões em sua face claramente visível no olho mágico telescópico. O disparo de Fidel, que abriu fogo, o fulminou, pois só alcançou a dar um grito, algo assim como "ai minha mãe!" e caiu para não levantar-se mais. Generalizou-se o tiroteio e cairam os dois companheiros do infortunado soldado. O combate foi de uma ferocidade extraordinária e logo estávamos fugindo cada um por nosso lado, depois de logrados por nossa parte os objetivos propostos.

Ao fazer a contagem verificamos que tínhamos gasto 900 balas aproximadamente e que se recuperaram 70 de um cinto de cartucho cheio e um fuzil. Isto nos melhorou muito o ânimo e nos permitiu seguir durante todo o dia trepando na direção dos montes mais inacessíveis para escapar à perseguição de grupos maiores do exército inimigo. Assim fomos cair do outro lado da montanha e caminhávamos paralelamente à tropa de Batista, que também tinha fugido, e tinha cruzado os mesmos cumes das montanhas para seguir o rumo ao outro lado; durante dois dias nossas tropas e as tropas do inimigo avançaram quase juntas , sem dar-se conta disto; uma vez dormiram em duas choupanas separadas apenas por um pequeno rio como é o de La Plata, e algum par de meandros entre si. O tenente que comandava a patrulha se chamava Sánchez Mosquera e seu nome se fez famoso na Sierra Maestra por suas depredações de todo o tipo. É bom explicar que os balaços ouvidos por nós horas antes da ação foram disparados para assassinar a um "pombo de haitiano" que se negava a dirigir as tropas até nosso esconderijo. Se não tivessem cometido esse assassinato não nos teriam encontrado bem alertas.

Estávamos novamente sobrecarregados de peso levando muitos de nós dois fuzis; nesta situação não era muito fácil o caminho , mas evidentemente era outra moral a que imperava , diferente à que ostentávamos depois do desastre de Alegría de Pío . Poucos dias antes tínhamos derrotado um grupo menor em número, entrincheirados num quartel; agora derrotávamos uma coluna em marcha superior em número a nossas forças e pôde-se experimentar a importância que tem neste tipo de guerra liquidar as vanguardas, pois sem vanguarda não se pode mover um exército.

Próxima passagem da guerra revolucionária: Ataque Aéreo

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Passagens da Guerra Revolucionária - Combate de La Plata (Primeiro Combate Vitorioso)

Agosto- mês Cmte. Fidel Castro








Contada por Cmte. Ernesto Che Guevara

O ataque a um pequeno quartel que existia na desembocadura do rio de La Plata, na Sierra Maestra, constituiu nossa primeira vitória e teve certa ressonância, mas distante que a abrupta região onde se realizou. Foi um chamado de atenção a todos, a demonstração de que o Exército Rebelde existia e estava disposot a lutar e, para,nós, a confirmação de nossas possibilidades de vitória final.

No dia 14 de janeiro de 1957, pouco mais de um mês depois da surpresa de Alegría de Pío, paramos no rio Magdalena. Ali fizemos alguns exercícios de tiro, ordenados por Fidel para treinar algo às pessoas; alguns dispararam pela primeira vez na sua vida. ali tomamos um banho também, depois de muitos dias de ignorar a higiene e, os que puderam, mudaram suas roupas. Naquele momento havia vinte e três armas efetivas; nove fuzis com olho mágico telescópio, cinco semi-automáticos, quatro de ferrolho, duas metralhadoras Thompson, duas pistolas metralhadoras e uma espingarda calibre 16. À tarde desse dia subimos a última colina antes de chegar às imediações de La Plata. Seguíamos um estreito trilho da floresta transitado po muito poucas pessoas e marcado especialmente para nós a força de facão por um camponês da região, chamado Melquiades Elías. Este nome nos foi dado por nosso guia Eutimio, que nesse tempo era imprescindível para nós e a imagem do camponês rebelde; mas algum tempo depois foi capturado por Casilla, quem em vez de matá-lo comprou a oferta de $10.000 e um grau no exército se matava a Fidel. Esteve muito próximo de sua tentativa, mas lhe faltou valor para fazê-lo; porém muito importante foi sua ação, delatando nossos acampamentos.

Naquela época, Eutimio nos servia lealmente; era um dos tantos camponeses que lutavam por suas terras contra os latifundiários da região, e quem lutasse contra os latifundiários, lutava ao mesmo tempo contra a guarda que era a servidora daquela classe.

durante o caminho desse dia, levamos prisioneiros dois camponeses que resultaram ser parentes do guia: um deles foi posto em liberdade mas o outro foi retido, como medida precautória. O dia seguinte, 15 de janeiro, avistamos o quartel de La Plata, a meio construir, com sua lâminas de zinco e vimos um grupo de homens semi-nus nos quais se adivinhava, no entanto, o uniforme inimigo. Pudemos observar como, à seis datarde, antes de cair o sol, chegava uma lancha carregada de guardas, descendouns e subindo outros. Como não compreendemos bem as evoluções decidimos deixar o ataque para o dia seguinte.

Desde o amnanhcer do dia 16 começou a observação do quartel. Tinham retirado o guarda-costas da noite; se iniciaram trabalhos deexploração mas não se viam soldados por nenhuma parte. Às três da tarde, decidimos ir aproximando-nos ao caminho que sobe do quartel bordejando o rio para tratar de observar algo; ao anoitecer, cruzamos o rio La Plata que não tem profundidade nenhuma e nos colocamos a caminho; aos cinco minutos, levamos prisioneiros dois camponeses. Um dos homens tinha alguns antecedentes de informante; ao saber quem éramos e ao expressar-lhes que não tínhamos boas intenções se não falavam claro, deram informações valiosas. Havia uns soldados no quartel, aproximadamente uns quinze, e, além disso, pouco depois devia passar um dos três famosos maiorais da região: Chicho Osório. Estes maiorais pertenciam ao latifúndio da família Laviti que tinha criado um enorme feudo e o mantinha mediante o terror com a ajuda de indivíduos como Chicho Osório. ao pouco tempo, apareceu o nomeado Chicho, bêbado, montado em uma mula e com um pretinho a cavalo. Universo Sánchez, lhe deu alto em nome da guarda rural. e este rapidamente respondeu: "mosquito"; era a senha.

Apesar de nosso aspecto patibulário, talvez pelo grau de embriaguez desse sujeito, pudemos enganar Chicho Osório. Fidel , com ar indignado, lhe disse que era um coronel do exército que vinha investigar por que razão não se tinha liquidado já os rebeldes, que ele sim se metia no monte, por isso estava barbudo, que era um "lixo" o que estava fazendo o exército; enfim, falou bastante mal da atuação das forças inimigas. Com grande submissão, Chicho Osório contou que, efetivamente, os guardas passavem bem no quartel, que só comiam, sem agir; que faziam percursos sem importância; manifestando enfaticamente que havia que liquidar todos os rebeldes. Começou a fazer discretamenteuma relação das pessoas inimigas e inimigas da zona, perguntandopor elas a Chico Osório. Perguntou-lhe Fidel o que faria ele com Fidel Castro no caso de prendê-lo, e então respondeu com um gesto explicativo que havia que partir-lhes os... igualmente opinou de Crescencio. Olhe, disse, mostrando os sapatos de nossa tropa, de fatura mexicana, "de um desses filhos de.... que matamos". Ali, sem sabê-lo, Chicho Osório tinha assinado sua própria sentença de morte. No final, ante a insinuação de Fidel, assentiu a guiar-nos para surpreender a todos os soldados e demostrar-lhes que estavam muito mal preparados e que não cumpriam com o seu dever.

Aproximamo-nos em direção ao quartel, tendo como guia Chicho Osório, embora pessoalmente não estava muito certo de que aquele homem já não tivesse percebido o estratagema.

Seguiu porém com toda a ingenuidade, pois estavatão bêbado que não podia discernir; ao cruzar novamenteo rio para aproximar-nos do quartel, fidel disse-lheque as ordenanças militares estabeleciam que o prisioneirodevia estar amarrado; o homem não oôs resistência, seguiu como prisioneiro, embora sem sabê-lo. Explicou que a única guarda estabelecida era uma entrada no quartel em construção e a casa de outro dos maiorais chamado Honório, e guiou-nos até o lugar próximo ao quartel por onde passava o caminho ao Macío.

Tínhamos preparado o ataque com vinte e duas armas disponíveis. Era um momento importante, pois tínhamos poucas balas; havia que tomar o quartel de todas as maneiras, o não tomá-lo significava gastar todo o parque, ficar praticamente indefesos. O companheiro tenente Julio Díaz, caído gloriosamente em El Uvero, com Camilo Cienfuegos, Benítez e Calixto Morales, com fuzis semi-automáticos, cercariam a casa guano pela extrema direita. Fidel, Universino Sánchez, Luis Crespo, Calixto García, Fajardo e eu, atacaríamos pelo centro. Raúl com sua esquadra e Almeida com a sua, o quartel, pela esquerda.

Assim fomos aproximado-nos às posições inimigas até chegar a uns quarenta metros. Havia boa lua. Fidel começou o tiroteio com duas rajadas de metralhadora e foi seguido por todos os fuzis disponíveis. Imediatamente, se ordenou que os soldados se rendessem, mas sem resultado nenhum. No momento de iniciar-se o tiroteio foi executado o informante e o assassino Chicho Osório.

O ataque tinha-se iniciado às duas e quarenta da madrugada e os guardas fizeram mais resitência do previsível, havia um sargento que tinha um M-1, e respondia com uma descargacada vez que lhe ordenávamos a rendição; deram-se ordens de disparar nossas velhas granadas de tipo brasileiro; Luis CRespo lançou a sua, eu a que me pertencia. Porém, não explodiram. Raúl Castro lançou dinamite sem niple e esta não fez nenhum efeito. Havia então que aproximar-se e queimar as casas ainda com risco da prórpia vida; naquele momento Universo Sánchez tentou fazê-lo primeiro e falhou, depois Camilo Cienfuegos tampouco pôde fazê-lo, e no final, eu e Luis Crespo aproximamos-nos a um rancho que este companheiro incendiou. À luz do incêncio pudemos ver que era simplesmente um lugar onde guardavam os frutos do coqueiral próximo, mas intimidamos os soldados que abandonaram a luta. Um fugindo foi quase chocar contra o fuzil de Luis Crespo que o feriu no peito, o despojou da armae seguimos disparando contra o sargento que fugia e esgotou os poucos cartuchos de que dispunha.

Os soldados, quase sem defesa, eram sem clemência feridos por nossas balas. Camilo Cienfuegos entrou primeiro, por nosso lado, à casa de onde chegavam gritos de rendição. Fizemos rapidamente o balanço que tinha deixado o combate em armas: oito Springfield, uma metralhadora Thompson e uns mil tiros; tínhamos gastado uns quinhentos tiros aproximadamente. Além disso, tínhamos cintos de cartucho, combustível, facas roupas, alguma comida. A contagem de baixas: eles tinham dois mortos e cinco feridos, além disso três prisioneiros. Alguns junto com o informante Honório, tinham fugido. Por nossa parte, nem um arranhão. Pegamos fogo nas casas dos soldados e nos retiramos, logo de prestar atenção da melhor maneira possível aos feridos, três deles de muita gravidade que logo morreram, segundo nos informaram depois da vitória final, os deixamos aos cuidados dos soldados prisioneiros. Um destes soldados, se incorporou depois às tropas do comandante Raúl Castro e alcançou o grau de tenente, morrendo num acidente aéreo já depois de ganha a guerra.

Sempre contrastava nossa atitude com os feridos e a do exército que não só assassinava nossos feridos senão que abandonava os seus. Esta diferença foi fazendo seu efeito com o tempo e constituiu um dos fatores de triunfo. Ali, com muita dor para mim, que sentia como médico a necessidade de manterreservas para nossas tropas, ordenou fidel que se proporcionasse aos prisioneiros todas as medicinas disponíveis para o cuidado dos soldados feridos, e assim fizemos. Deixamos também em liberdade os civis e, às quatro e trinta da manhã do dia 17, saíamos ruma a Palma Mocha, onde chegamos ao amanhcer internando-nos rapidamente, procurando as zonas mais abruptas da Maestra.

Este foi o primeiro combate vitorioso dos exércitos rebeldes; neste e no combate seguinte, foi o único momento da vidade nossa tropa onde nóstivemos mais armas que homens... O camponêsnão estava preparado para se incorporar à luta e a comunicação com as bases da cidade não existia.

Próxima passagem da guerra revolucionária: Combate de "Arroyo Del Infierno"

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Passagens da Guerra Revolucionária - À Deriva

Mês Cmte. Fidel Castro






Cmte. Ernesto Che Guevara

No dia seguinte da surpresa de Alegria de Pío, caminhávamos entre montes. Estávamos praticamente sem água. À noite saímos a caminhar. Estabeleci qual era a Estrela Polar, de acordo com meus conhecimentos no assunto, e durante um par de dias fomos caminhando, guiando-nos por ela em direção ao leste e chegar à Sierra Maestra. Muito tempo depois me inteiraria que a estrela que nos permitiu guiar em direção ao leste não era a Polar e que simplesmente por casualidade, tínhamos ido levando aproximadamente esta direção até o amanhecer em umas falésias já muito perto da costa.

Nossa tortura maior era a sede; essa noite tinha aparecido uma multidão de caranguejos e impelidos pela fome matamos alguns , mas como não podiamos fazer fogo, sorvemos cruas suas partes galatinosas, o que nos provocou uma sede angustiante.

Depois de procurar muito achamos um passo transitável onde descer à procura da água mas, no transcurso de idas e vindas , perdemos a fossa pbservada desde o alto e só pudemos mitigar a sede graças às pequenas quantidades de água restante de chuvas anteriores que ficam nos espaços do "dente de cão", lá nós a procurávamos e a extraíamos por meio da bombinha de um nebulizador antiasmático; bebemos só algumas gotas de líquido cada um.

Achamos que eram soldados, mas já estávamos demasiado perto par voltar e avançamos rapidamente; Almeida foi comunicar a rendição aos adormecidos, quando nós nos encontramos com uma surpresa agradável: eram três expedicionários do Granma, Camilo Cienfuegos, Pancho Gonzáles e Pablo Hurtado. Seguimos nosso caminho juntos. Oito era agora o número de combatentesdo exército remanescente do Granma e não tínhamos notícias de que houvesse mais sobreviventes.

Apenas amanheceu começamos uma exploração. O dia nos surpreendeu antes de poder transpor a colina e só tínhamos a chegar a uma caverna desde a qual se observava perfeitamente todo o panorama: este era de absoluta tranquilidade; uma embarcação da marinha desembarcava homens, enquanto outros embarcavam, aparentemente, em uma operação de permuta. Pudemos contar cerca de trinta e depois soubemos que os homens de Laurent, o temido assassino da Marinha de Guerra que, depois de ter cumprido sua macabra missão de assassinar um grupo de companheiros, estava relevando seus homens. A situação era bastante complicada; no caso de sermos descobertos, não havia a menor possibilidade de salvação e só restava lutar até o fim.

Passamos o dia sem provar um bocado, racionando rigorosamente a água que distribuíamos no ocultar de um olho mágico telescópico par que fosse exata a medida para cada um de nós e à noite empreendemos novamente o caminho para afastarnos desta zona onde vivemos um dos dias mais angustiantes da guerra, entre a sede e a fome, o sentimento de nossa derrota e a iminência de um perigo palpável e inevitável que nos fazia sentir como ratos encurralados.

Depois de algumas peripécias fomos cair no arroio que desmbocava no mar, ou a algum afluente deste; deitados no chão bebemos avidamente, como cavalos, durante um tempo longo, até que nosso estômago vazio de alimentos, se recusou a receber mais água. Enchemos os cantis e seguimos nossa viagem. De madrugada chegamos ao cume de uma pequena colina na qual havia umas quantas árvores. Distribuímos aí como para fazer resistência e para poder nos escondermos o melhor possível e passamos o dia inteiro vendo passar teco-tecos a muita baixa altura sobre nossas cabeças, com alto-falantes que emitiam sons incompreensívies mas que Almeida e Benitez, veteranos do Moncada, entendiam que era uma intimação de rendição.

Seguimos nosso caminho mas com a gente cada vez mais relutante em caminhar; essa noite, ou talvez a seguinte, quase todos os companheiros se recusaram a continuar e tivemos que chamar então às portas de um camponês, no lugar chamado Puercas Gordas, nove dias depois da surpresa. Receberam-nos de forma amável e subsequentemente um festival de comida se realizou naquela choça camponesa.

Os camponeses disseram que tinham notícias de que Fidel estava vivo e que podiam levar-nos a lagumas zonas nas quais presumivelmente estaria com Crescencio Perez, mas tínhamos que deixar os uniforme e as armas. Almeida e eu conservamos umas pistola metralhadoras Star; os oito fuzis e todas as balas ficaram resguardadas na casa do camponês, enquanto nós nos dividíamos em dois grupos, de três e quatro homens, para hospedar-mos na casa dos camponeses e daí ir ganhando, em fases sucessivas, a Maestra.

Apenas partimos, o dono da casa não pode resistir a tentação de comunicar a notícia a um amigo para discutir onde escondia as armas; este o convenceu de que podiam ser vendidas, entrando em combinação com um terceiro, o que fez a acusação ao exército e, poucas horas depois de ter deixado a primeira hospitaleira mansão de Cuba, o inimigo entrou, levava prisioneiro Pablo Hurtado e capturava todas as armas.

Estávamos na casa de um adventista chamado Argélio Rosabal a quem todos conheciam como "O Pastor". Este companheiro, ao inteirar-se da infausta notícia estabeleceu contato rapidamente com outro camponês da zona, que a conhecia bem e que dizia simpatizava com os rebeldes. Essa noite nos tiravam dali e nos levavam a outro refúgio mais seguro. O camponês que conhecêramos aquele dia se chamava Guillermo García, hoje chefe do Exército de Ocidente e membro da Direção Nacional do nosso Partido.

Uma madrugada, depois de cruzar a rodovia de Pilón, e caminhar sem guia algum, chegamos até o sítio de Mongo Pérez onde estavam todos os expedicionários sobreviventes de nossas tropas desmbarcadas; a saber, Fidel Castro, Universo Sánchez, Faustino Pérez, Rául Castro, Ciro Redondo, Efigenio, Ameijeiras René Rodríguez e Armando Rodríguez. Poucos dias depois se incorporariam a nós Morán, Crespo, Julito Díaz, Calixto García, Calixto Morales e Bermúdez.

Nossa pequena tropa se apresentava sem uniforme e sem armamentos, pois as duas pistolas eram tudo o que tínhamos conseguido salvar do desastre e a reconvenção de Fidel foi muito violenta. Durante toda a campanha, e ainda hoje, nós lembramos de sua advertência: "vocês não pagaram a falta que cometeram, porque ao deixar os fuzis nestas circunstâncias se paga com a vida; a única esperança de sobrevivência que tinham no caso de que o exército esbarrasse com vocês eram suas armas. Deixá-las foi um crime e uma estupidez".