BLOQUE ZONA LIVRE em Construção

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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Prólogo a "Guerra do Povo, Exército do Povo"



Ernesto 'Che' Guevara

1964


Primeira Edição: Prólogo ao livro de Vo Nguyen Giap, Guerra do povo, exército do povo, Editora Política, Habana 1964
Traduzido de: Escritos y discursos, tomo 1, Editorial de Ciencias Sociales, Havana 1972, páginas 225-232
Fonte: Gentilmente cedido pela primeiralinha.org.

HTML por José Braz para o Marxists Internet Archive


Consideramos umha alta honra prologar este livro baseado nos escritos do vicegeneral Vo Nguyen Giap, actualmente Primeiro Ministro da Defesa Nacional e Comandante em Chefe do Exército Popular da República Democrática do Viet Nam. O general Giap fala com a autoridade que lhe confere a sua longa experiência pessoal e a do partido na luita de libertaçom. A obra, que tem de por si umha actualidade permanente, reveste mais interesse, se couber, devido à tumultuosa série de acontecimentos acontecidos nos últimos tempos nesta regiom da Ásia, e às controvérsias surgidas sobre o uso adequado da luita armada como meio de resolver as contradiçons insalváveis entre exploradores e explorados, em determinadas condiçons históricas.

Os combates que, exitosamente, levaram durante longos anos os heróicos exércitos e o povo inteiro do Viet Nam, repetem-se agora; o Viet Nam do Sul está em pé de guerra; a parte do país arrebatada ao seu legítimo dono, o povo vietnamita, está cada vez mais perto da vitória. Ainda quando os inimigos imperialistas ameacem com enviar milhares de homens, os desaforados falem do uso da bomba atómica táctica e o general Taylor seja nomeado embaixador da chamada "República do Viet Nam do Sul" e, tacitamente, comandante em chefe dos exércitos que tratarám de liquidar a guerra do povo, nada impedirá a sua derrota. Muito perto, no Laos, a guerra civil acendeu, provocada também polas manobras dos norte-americanos, apoiados de umha maneira ou outra polos seus aliados de sempre, e o reino neutral da Camboja, parte, como os seus irmaos Laos e Viet Nam, da antiguamente chamada Indochina francesa, está sujeita a violaçons das suas fronteiras e a ataques permanentes, pola sua posiçom erguida em defesa da neutralidade e do direito a viver como naçom soberana.

Por isto todo, a obra que prologamos sobarda os limites de um episódio histórico determinado e adquere vigência para toda a zona; mas, além disso, os problemas que coloca tenhem particular importáncia para a maior parte dos povos da América Latina submetidos ao domínio do imperialismo norte-americano, sem contarmos com que seria de extraordinário interesse o conhecimento dela para todos os povos de África que dia a dia sustenhem luitas cada vez mais duras, mas também repetidamente vitoriosas, contra os colonialistas de diversa índole.

O Viet Nam tem características especiais; umha civilizaçom muito velha e umha longa tradiçom como reino independente com particularidades próprias e cultura autóctone. Dentro da sua milenária história, o episódio do colonialismo francês é pouco mais do que umha pinga de água. No entanto, as suas qualidades fundamentais e opostas do agressor igualam, em termos gerais, as contradiçons insalváveis que se apresentam em todo o mundo dependente, bem como a forma de resolvê-las: Cuba, sem conhecer estes escritos, bem como também nom outros que sobre o tema se tinham feito narrando as experiências da Revoluçom chinesa, iniciou o caminho da sua libertaçom por métodos semelhantes, com o sucesso que está hoje à vista de todos.

Portanto, esta obra coloca questons de interesse geral para o mundo em luita pola sua libertaçom. Podem resumir-se assim: a factabilidade da luita armada, em condiçons especiais em que tenham fracassado os métodos pacíficos de luita de libertaçom; o tipo que deve ter esta, em lugares com grandes extensons de terreno favorável para a guerra de guerrilhas e com populaçom camponesa maioritária ou importante.

Apesar de que o livro se baseia numha compilaçom de artigos, tem boa ilaçom, e certas repetiçons nom fam mais do que dar-lhe maior vigor ao conjunto.

Trata-se nele da guerra de libertaçom do povo vietnamita; da definiçom desta luita como guerra do povo e do seu braço executor como exército do povo; da exposiçom das grandes experiências do partido na direcçom da luita armada e a organizaçom das forças armadas revolucionárias. O capítulo final trata sobre o episódio definitiov da contenda, Dien Vien Fu, em que já as forças de libertaçom ganham em qualidade e passam à guerra de posiçons, derrotando também neste terreno o inimigo imperialista.

Começa-se narrando como, depois de acabada a guerra mundial com o triunfo da Uniom Soviética e das potências aliadas do Ocidente, França burlou todos os acordos e levou o país a umha situaçom de extrema tensom. Os métodos pacíficos e racionais de resolver as controvérsias fôrom demonstrando a sua inutilidade, até que o povo tomou a via da luitar armada; nesta, polas características do país, o peso fundamentalmente recaia no campesinato. Era umha guerra de características camponesas, polos lugares fundamentais de acçom e pola composiçom fundamental do exército, mas estava dirigida pola ideologia do proletariado, fazendo válida mais umha vez a aliança operário-camponesa como factor fundamental da vitória. Embora nos primeiros momentos, polas características da luita anticolonialista e antiimperialista, era umha guerra de todo o povo, e umha grande quantidade de gente cuja extracçom nom respondia exactamente às definiçons clássicas de camponês pobre ou de operário, incorporava-se também à luita de libertaçom; a pouco e pouco, definiam-se os campos e começava a luita antifeudal, atingindo entom o seu verdadeiro carácter de antiimperialista, anticolonialista, antifeudal, dando como resultado o estabelecimento de umha revoluçom socialista.

A luita de massas foi utilizada durante todo o transcorrer da guerra polo partido vietnamita. Foi utilizada, em primeiro lugar, porque a guerra da guerrilha nom é mais do que umha expressom da luita de massas e nom se pode pensar nela quando esta está isolada do seu meio natural, que é o povo; a guerrilha significa, neste caso, a avançada numericamente inferior da grande maioria do povo que nom tem armas mas que exprime na sua vanguarda a vontade de triunfo. Aliás, a luita de massas foi utilizada nas cidades em todo o momento como arma imprescindível para o desenvolvimento da luita; é muito importante salientar que a luita de massas, no decurso da acçom pola libertaçom do povo vietnamita, nunca cedeu os seus direitos para acolher-se a determinadas concessons ao regime; nom parlamentou sobre concessons mútuas, colocou a necessidade de obter determinadas liberdades e garantias sem qualquer contrapartida, evitando assim que, em muitos sectores, a guerra se figesse mais cruel ainda do que a faziam os colonialistas franceses. Este significado da luita de massas no seu carácter dinámico, sem compromissos, dá-lhe umha importáncia fundamental à compreensom do problema da luita pola libertaçom na Latino-América.

O marxismo foi aplicado conseqüentemente à situaçom histórica concreta do Viet Nam, e por isso, guiados por um partido de vanguarda, fiel ao seu povo e conseqüente na sua doutrina, atingírom tam sonada vitória sobre os imperialistas.

As características da luita, em que houvo que ceder terreno e esperar muitos anos para ver o resultado final da vitória, com vaivéns, fluxos e refluxos, dam-lhe o carácter de guerra prolongada.

Durante todo o tempo da luita pudo-se dizer que a frente estava onde estava o inimigo; num momento dado, este ocupava quase todo o país e a frente estava espalhada por onde o inimigo estivesse; logo a seguir houvo umha delimitaçom de linhas de combate e ali havia umha frente principal, mas a retaguarda inimiga constituia constantemente um outro cenário para os bandos em luita, de maneira que a guerra foi totoal e que nunca os colonialistas pudérom mobilizar à vontade, num terreno de base sólida, as suas tropas de agressom contras zonas libertadas.

A palavra de ordem "dinamismo, iniciativa, mobilidade, decisom rápida ante situaçons novas", é síntese soma da táctica guerrilheira, e nessas poucas palavras está exprimido todo a dificílima arte da guerra popular.

Em certos momentos, as novas guerrilhas, alçadas sob a direcçom do partido, estavam ainda em lugares nos quais a penetraçom francesa era muito forte e a populaçom estava aterrorizada; nesses casos, praticavam constantemente o que os vietnamitas chamam a "propaganda armada". A propaganda armada é simplesmente a presença de forças de libertaçom em determinados lugares, que vam mostrando o seu poderio e a sua embatibilidade, submidos no grande mar do povo como peixe na água. A propaganda armada, ao perpetuar-se na zona, catalisava as massas com a sua presença e revolucionava imediatamente a regiom, acrescentando novos territórios aos já conseguidos polo exército do povo. É assim que proliferam as bases e as zonas guerrilheiras em todo o território vietnamita; a táctica, neste caso, estava resumida numha palavra de ordem que se expressa assim: se o inimigo se concentrar, perde terreno, se se diluir, perde força, no momento em que o inimigo se concentrar para atacar duramente, cumpre contraatacar em todos os lugares onde reunciou ao emprego disperso das suas forças; se o inimigo volta a ocupar determinados lugares com pequenos grupos, o contraataque fará-se consoante a correlaçom existente em cada lugar, mas a força fundamental de choque do inimigo terá-se diluido mais umha vez. Eis um outro dos ensinamentos fundamentais da guerra de libertaçom do povo vietnamita.

Na luita, tem-se passado por três etapas que caracterizam, em geral, o desenvolvimento da guerra do povo; inicia-se com guerrilhas de pequeño tamanho, de extraordinária mobilidade, diluíveis completamente na geografia física e humana da regiom: com o decorrer do tempo, produzem-se acontecimentos quantitativos que, num dado momento, dam passagem ao grande salto qualitativo que é a guerra de movimentos. Aqui som grupos mais compactos os que agem, dominando zonas inteiras; embora os seus meios sejam maiores e a sua capacidade de castigar o inimigo muito mais forte, a mobilidade é a sua característica fundamental. Depois de um outro período, quando maduram as condiçons, chega-se à etapa final da luita em que o exército se consolida e, inclusive, à guerra de posiçons, como aconteceu em Dien Bien Fu, pontilha à ditadura colonial.

No transcorrer da contenda que, dialecticamente, vai desenvolvenod-se até culminar, no ataque de Dien Bien Fu, em guerra de posiçons, criam-se zonas libertadas, ou semi-libertadas do inimigo, que constituem territórios de autodefesa. A autodefesa é concebida polos vietnamitas também num sentido activo como parte de umha luita única contra o inimigo; as zonas de autodefensa podem defender-se elas próprias de ataques limitados, subministram homens ao exército do povo, mantenhem a segurança interna da regiom, mantenhem a produçom e asseguram o abastecimento da frente. A autodefesa nom é nada mais do que umha parte mínima de um todo, com características especiais; nunca pode conceber-se umha zona de autodefesa como um todo em si, quer dizer, umha regiom onde as forças populares tentem defender-se do ataque do inimigo enquanto todo o território exterior à dita zona fica sem convulsons. Se assim acontecesse, o foco seria localizado, atenazado e abatido, a nom ser que passasse imediatamente à fase primeira da guerra do povo, quer dizer, à luita de guerrilhas. Como já temos dito, todo o processo da luita vietnamita deveu basear-se no campesinato.

Num primeiro momento, sem umha definiçom clara dos marcos da luita, esta fazia-se somente polo interesse da libertaçom nacional, mas aos poucos delimitavam-se os campos, transformavam-se numha típica guerra camponesa e a reforma agrária estabelecia-se no curso da luita, quando as contradiçons aprofundavam e, a um tempo, a força do exército do povo; é a manifestaçom da luita de classes dentro da sociedade em guerra. Esta era dirigida polo partido com o fim de anular a maior quantidade possível de inimigos e de utilizar ao máximo as contradiçons com o colonialismo dos amigos pouco firmes. Assim, conjugando acertadamente as contradiçons, é que o partido pudo aproveitar todas as forças emanadas destes choques e atingir o triunfo no menor tempo possível.

Narra-nos também o companheiro Vo Nguyen Giap a estreita ligaçom que existe entre o partido e o exército, como, nesta luita, o exército nom é senom umha parte do partido dirigente da luita. Da estreita ligaçom que existe por seu turno entre o exército e o povo; como o exército e o povo nom som senom a mesma cousa, o que mais umha vez se vê corroborado na síntese magnífica que figera Camilo: "o exército é o povo uniformado". O corpo armado, durante a luita e depois dela, deveu adquirir umha técnica nova, técnica que lhe permitirá ultrapassar as novas armas do inimigo e rejeitar qualquer tipo de ofensiva.

O soldado revolucionário tem umha disciplina consciente. Durante todo o processo, caracteriza-se fundamentalmente pola sua autodisciplina. Por sua vez, no exército do povo, respeitando todas as regras dos códigos militares, deve haver umha grande democracia interna e umha grande igualdade na obtençom dos bens necessários aos homens em luita.

Em todas estas manifestaçons, o general Nguyen Giap assinala o que nós conhecemos pola nossa própria experiência, experiência que se realiza alguns anos depois de conseguido o triunfo polas forças populares vietnamitas, mas que reforça a ideia da necessidade da análise profunda dos processos históricos do momento actual. Esta deve ser feita à luz do marxismo, utilizando toda a sua capacidade criadora, para poder adaptá-lo às circunstáncias diversas de países, dissímeis em todo o que di respeito ao aspecto exterior da sua conformaçom, mas iguais na estrutura colonizada, na existência de um poder imperialista opressor e de umha classe associada a ele por ligaçons muito estreitas. Após umha análise certeira, chega o general Giap à seguinte conclusom: "Na conjuntura actual do mundo, umha naçom, embora seja pequena e fraca, que se alce num só homem sob a direcçom da classe operária para luitar resoltamente pola sua independência e a democracia, tem a possibilidade moral e material de vencer todos os agressores, nom importa quais forem. Em condiçons históricas determinadas, esta luita pola libertaçom nacional pode passar por umha luita armada de longa duraçom -a resistência prolongadal- para atingir o triunfo". Estas palavras sintetizam as características gerais que deve assumir a guerra de libertaçom nos territórios dependentes.

Achamos que a melhor declaraçom para acabar o prólogo é a mesma que utilizam os editores deste livro e com a qual estamos identificados: "Oxalá que todos os nossos amigos que, como nós, sofrem ainda os ataques e as ameaças do imperialismo, podam encontrar em Guerra do povo, exército do povo, o que achamos nós próprios: novos motivos de fé e esperanças".


quinta-feira, 24 de julho de 2008

O NASCIMENTO DE UM EXERCITO: 3 - A marcha para o Sul


Desde o seu regresso ao país, na regiom fronteiriça, o tio Ho preocupara-se constantemente em conservar o contacto com o Comité Central que se encontrava no delta. Quando a oitava Sessom do Comité Central decidiu a formaçom de duas bases revolucionárias no Viet Bac, a ligaçom entre Cao Bang e a regiom de Bac Son-Vu Nhai tornou-se umha necessidade imperiosa.

Além da nossa rede de ligaçom clandestina, era-nos necessário urgentemente organizar entre Cao Bang e o delta outras numerosas ramificaçons nas populaçons locais. Assim, em caso de repressom, poderíamos conservar o contacto e preservar as possibilidades de contra-ataque.

Para estabelecer a ligaçom em direcçom do delta, tínhamos de passar por regions habitadas polos Tho e os Man de sapecas" . Começamos um trabalho de agitaçom entre estes últimos. Tal como os Man Brancos, os Man de sapecas som honestos e leais. Também eles estavam saturados com o imperialismo e prontos para a insurreiçom. A hospitalidade e a ajuda mútua eram de tradiçom entre eles. Entusiasmárom-se com a ideia de se juntar numha liga para expulsar os colonialistas e fascistas, mas só concediam a sua confiança após a prestaçom de um juramento solene, segundo os ritos tradicionais. Para lhes provar a nossa boa fé, tomamos parte nessas cerimónias. Juramos sobre as nossas cabeças unirmo-nos como irmaos no seio de umha mesma família para expulsar das nossas aldeias os japoneses e os franceses, em nome da Pátria, segundo o programa da Liga Viet Minh; juramos conservarmo-nos solidários nos momentos mais críticos e nunca trair a Liga, nem mesmo sob a tortura. Para selar os nossos juramentos, mergulhávamos um pau de incenso aceso na água ou cortávamos a cabeça de um frango com um golpe seco de machete.

A partir da altura em que o movimento assumiu maior envergadura, o inimigo desencadeou a repressom. Unidades de Ngan Son, Nguyen Binh e Cao Bang subírom até ao cantom de Kim Ma, que cercaram. Bloquearam todas as vias de comunicaçom, estradas e pistas, para dar caça aos militantes e deitar a mao aos nossos serviços clandestinos. Polo meu lado, eu estava em vias de abrir um curso político com o camarada Thiet Hung e, ainda por cima, sofria de umha crise de paludismo. A populaçom aconselhou-nos a abandonar a regiom: "Desta vez é umha grande operaçom. A tropa chegou até aqui para os prender, seria melhor suspenderem por um momento as actividades da liga e retirarem-se para a floresta." Assim que soubérom a notícia, o Tio Ho e o Comité inter-provincial enviárom-nos emissários para que voltássemos ao P.C., mas nós pensamos que, em tais circunstáncias, a nossa partida acarretava o desmembramento das organizaçons de base. Pedimos para ficar.

No mesmo dia, o inimigo entregou-se a umha caçada sem quartel. Guiados polos camaradas Khan e Lac, marchamos em linha recta, sob umha chuva diluviana, através da selva e dos campos, evitando as pistas, durante umha noite inteira. Até de manhá, escalamos cristas e galgamos encostas. De madrugada, o nevoeiro era tam espesso que nom se via a mais de três metros. Polo meio da manhá, quando a neblina se levantou, encontramo-nos no alto de um cabeço escalvado, nas proximidades de umha aldeia que os atiradores repescavam casa por casa. Deitamo-nos de barriga para baixo e rastejamos durante mais de um quilómetro para atingir a orla da floresta, onde retomamos a marcha. Ao meio dia, estávamos esgotados, ao ponto de nom conseguirmos pôr um pé adiante do outro, e foram os camaradas da regiom que, tomando-nos pola mao, nos figérom marchar até ao crepúsculo. Nessa altura, tínhamos atingido o local previsto, no cume de umha montanha muito elevada. Após a construçom, à pressa, de umha cabana para nos abrigar, arquitectamos um plano para retomar contacto com a populaçom e dirigir a acçom contra a repressom.

Depois desta marcha movimentada, eu e o camarada Thiet Hung fomos abalados pola febre durante dous meses e meio. Como medicamento, só tínhamos infusons de raízes "cu ao". Alguns dos nossos militantes, inquietos polo nosso estado de saúde, revestírom a túnica anilada das minorias Cho para ir implorar ao feiticeiro a nossa cura. Mas que podia o feiticeiro? Tivemos de esperar que a ligaçom fosse restabelecida. O camarada Cap, que véu do P.C. Para retomar o contacto conosco, trouxo-nos alguns comprimidos de quinino que nos aliviárom.

Na realidade, esta busca ainda nom passava de umha operaçom de pequena envergadura. Mas como era a primeira na regiom, nom deixou de nos causar sérias dificuldades. O movimento conheceu um recuo durante um certo tempo. Todavia, a propaganda e os cursos políticos continuavam. Depois, todo retomou. As associaçons para a salvaçom nacional, as organizaçons de autodefesa tinham-se retemperado na provaçom. No vale de Kim Ma, ressoou novamente o eco entusiástico dos comícios, preparando a insurreiçom. Depressa foi convocada a primeira Conferência dos Delegados das Minorias Man, que decidiu a criaçom da zona Quang Trung. O movimento retomara o seu fôlego. Por ocasiom do aniversário da Revoluçom de Outubro, os representantes dos cantons de Nguyen Binh e Ngan Son efectuaram umha conferência preparatória com vista à insurreiçom armada, com a participaçom de alguns trezentos delegados e de umha dezena de destacamentos de choque que figérom umha demonstraçom militar.

Para facilitar a nossa propaganda, pusemos em verso o programa da Liga Viet Minh. Eu traduzi-o, igualmente em verso, para o dialecto dos "Man de sapecas" e dos Man Brancos. Adaptamos novas letras sobre árias folclóricas para exaltar a revoluçom. O programa da Liga pro-pagava-se, assim, muito rapidamente e penetrava em profundidade nas massas. Ao chegar a umha aldeia que tínhamos ganho para a nossa causa, tive um dia a surpresa de ouvir raparigas e crianças recitar de cor os versos do programa da Liga, ao mesmo tempo que pilavam o arroz e cerdavam o algodom.

Quanto mais terreno a "marcha para o Sul" ganhava, mais quadros exigia. Correspondendo ao apelo do Comité interprovincial, umha centena de rapazes e de raparigas de Cao Bang abandonavam os seus lares para formar grupos de assalto armados. Arranjaram, polos seus próprios meios, armas, mosquetes ou granadas. O camarada Thiet Hung possuía um revólver caprichoso que falhava um tiro em cada dois. Quanto a mim, tinha umha granada fora de uso que pendurava do cinturom: um apoio moral nunca é para desprezar. Em estreita cooperaçom com os militantes locais, os grupos de assalto armados repartiram-se em diversas formaçons que se dirigírom para o sul em missom de propaganda. O grupo de assalto encarregado de dar início à operaçom partia em primeiro lugar.

Contactava os militantes locais para um trabalho de inquérito e de propaganda e depois levantava organizaçons de base. Vinha depois o grupo encarregado de consolidar os primeiros resultados. Fazia a escolha entre os simpatizantes dos elementos seguros e abria em sua intençom cursos políticos acelerados. Os quadros assim formados tornavam-se o fulcro da expansom do movimento.

Para acelerar o trabalho, em lugar de abordar simplesmente as aldeias pola ordem topográfica, dávamos às vezes um salto em frente. Quando as condiçons o permitiam, nom hesitávamos em enviar para longe um grupo de assalto, que se deslocava clandestinamente, para ir organizar umha aldeia onde as massas já estivessem mais ou menos consciencializadas. Este grupo alargava-se e estabelecia, pouco a pouco, o contacto com as antigas bases. Baptizamos este método de "táctica de paraquedismo".

No decurso da nossa marcha para o Sul, aconteceu-nos um incidente que merece ser relatado:

Acompanhando os progressos do movimento, eu descera, pouco a pouco, do cantom de Kim Ma até Agan Son para controlar o trabalho e abrir cursos de formaçom para os quadros regionais. Estava sobre umha montanha, nas proximidades da capital do distrito de Ngan Son, quando recebi umha carta urgente do camarada Tong: convocaçom imediata para o P. C. Voltei à pressa para Cao Bang. Assim que cheguei, os camaradas Tong e Vu Anh anunciárom-me que o Tio Ho tinha sido preso durante umha missom na China e que acabava de morrer de doença na prisom.

Eu estava a cem léguas de esperar umha tal notícia. todo começou a girar à minha volta. O Tio Ho já nom existia! Que perda para o nosso Partido, para o nosso povo! Discutimos a redacçom de um relatório para informar o Comité Central e a organizaçom de umha cerimónia em sua memória. O camarada Tong ficava encarregado de pronunciar a oraçom fúnebre. O camarada Cap trouxo a mala de verga do Tio Ho, onde pensávamos encontrar alguns objectos para conservar como recordaçom. Projectamos também enviar o camarada Cap à China para tentar localizar o túmulo.

Alguns dias mais tarde, eu retomava o caminho para continuar a minha missom. Nunca esquecerei aquela noite em que, em companhia de um camarada de "marcha para o Sul", atravessei montanhas desertas, cobertas de capim. Fazia um frio cortante. Comprimia-me umha tristeza infinita. Sentia-me como que abandonado. De lágrimas nos olhos, olhava as estrelas na imensidade do céu.

Aigum tempo depois, recebemos um jornal enviado da China. À margem, algumhas linhas em caracteres chineses. Eram do punho do Tio Hol

"Para todos, boa saúde e muita coragem no trabalho. Aqui, todo vai bem".

Seguiam alguns versos:

"As nuvens abraçam os montes
os montes estreitam as nuvens
O rio é um espelho que nada embacia
Sobre a crista dos montes do Oeste
Solitário, caminho, emocionado
Perscruto, ao longe, o céu do Sul
E penso nos meus amigos."

A nossa alegria foi inenarrável.

Fomos mostrar o jornal ao camarada Cap:

- Entom, que quer isto dizer?

- Eu mesmo nom percebo nada, respondeu-nos ele. Foi o próprio governador de Kuomintang que me anunciou, quando eu estava na China, que Nguyen Ai Quoc tinha morrido.

Nós pressionávamos Cap com perguntas:

- Tenta lembrar-te. Que disse ele exactamente em chinês?

Cap acabou por se recordar: o governador chinês, ao falar do Tio Ho, pronunciara as palavras "su lo, su lo" que significam "bem, bem" mas o nosso camarada tinha-as interpretado mal porque basta umha mudança no acento tónico da primeira palavra para que a expressom signifique "já morto, já morto".

Fomos sacudidos por um louco ataque de riso. Mas o facto é que tínhamos carregado este peso no coraçom durante meses e meses.

Por volta de Agosto de 1943, a estrada para o Sul estava aberta. Foi essa que tomei para me dirigir ao delta, a fim de lá encontrar o camarada Ba, isto é, Chu Van Tan.

Tínhamos conseguido organizar as massas num sector bastante vasto. A nossa pista atravessava várias cadeias de montanhas e diversos vales, ao passar polas aldeias das minorias Tho, "Man de sapecas" e Man vermelhos.

Por toda a parte, à minha passagem, reinava umha atmosfera febril de preparativos para a insurreiçom. O moral da populaçom era excelente. As minorias Tho, tal como as minorias Man, estavam ganhas para a nossa causa. Elas reservavam aos revolucionários um acolhimento dos mais calorosos. Todas as aldeias Man que se escalonavam na estrada em direcçom ao cume do Monte Phia Booc (um dos cumes mais elevados da regiom, no qual nom cessa de chuviscar, ao longo de todo o ano, mesmo quando fai bom tempo no vale) trabalhavam para o Viet Minh; as mulheres e as crianças sabiam de cor os versos do programa da Liga em língua Man, bem como várias cançons revolucionárias. Quando os denunciantes subiam até lá, a populaçom fazia todo para esconder e proteger os revolucionários. Nom hesitava mesmo, em caso de necessidade, em nos arranjar esconderijos seguros sob o próprio altar dos génios tutelares, que som lugares absolutamente tabus para os estrangeiros.

Depois de quinze dias de marcha, cheguei perto de Cho Chu por um carreiro montanhoso que passava por cima do posto de Coe. Mais alguns passos e estaria no ponto de encontro. Encontrei o camarada Chu Van Tan num "ray" , em plena selva. Torna-se inútil relatar a nossa alegria! Convocamos imediatamente um certo número de quadros de Bac Son que se encarregavam da agitaçom no local e outros da marcha "para o Sul" para umha troca de impressons. Seguidamente, organizamos umha festa íntima; quando a noite caiu, dormimos ao ar livre sob as folhas da latánia.

O camarada Tan traçou-nos um quadro da situaçom em Thsi Nguyen e no delta. As nossas organizaçons de base tinham-se implantado fortemente em Bac Son e Vu Nhai e o movimento ganhava as regions de Cho Chu e Dai Tu. O inimigo prosseguia na sua politica de repressom. O camarada Tan contou-nos ainda que tinha sido enviado um relatório ao Comité Central, que nos ia enviar imediatamente um dos seus membros. Anunciavam-nos a sua chegada iminente para cada dia; mas decorrêrom duas semanas sem que o víssemos aparecer. A repressom era tam intensa que nenguma pista se revelava segura. Tive de voltar para Cao Bang, tal como fora previsto a princípio. Eu tinha aproveitado estes dias de espera para escrever umha brochura sobre "A experiência da Liga Viet Minh no Viet Bac", destinada a ser enviada para o delta.

Cheguei a Cao Bang, na véspera da festa do Têt. No último dia do ano lunar, a maioria dos quadros e umha vintena de destacamentos de assalto armados da "marcha para o Sul" reuniram-se para festejar os nossos sucessos. A Liga Viet Minh e a Federaçom do Partido em Cao-Bac-Lang enviárom-nos um galhardete que trazia bordadas as palavras "Assalto vitorioso".

Nesse preciso momento, o inimigo desencadeava o terror branco.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O NASCIMENTO DE UM EXÉRCITO: 2 - O movimento arma-se


Por Vo Nguyen Giap

Com o andar do tempo, as nossas actívidades na China foram assinaladas polos agentes do Kuomingtang. Recebemos ordem de regressar ao país para umha nova missom.

Nos fins de 1941, eu e o camarada Tong (um dos pseudônimos de Pham Van Long) atravessamos a fronteira. O movimento em Cao Bang estava bem lançado, em muitos outros sítios começava a despontar apenas.

A Liga Víet Minh atingia já numerosos distritos. As minorias Trio e Nung aderiam com entusiasmo às Associaçons para a salvaçom nacional. Rapazes e raparigas constituíam-se em vanguarda, tanto para a propaganda e organizaçom como para o treino militar. As mulheres nom eram as menos resolutas. Em numerosas regions as crianças também se alistavam e serviam como agentes de ligaçom ou como vigias. As células do Partido ganhavam terreno nas comunas, onde o movimento era particuíarmente poderoso. Algumhas comunas, a cem por cento, começaram a aparecer a pouco e pouco, mais tarde cantons e distritos.

Nessas comunas, o Comité Viet Minh substituía-se inteiramente às autoridades legais para dirigir todos os assuntos, desde a celebraçom dos casamentos até às querelas por causa dos arrozais. A maioria dos notáveis aliavam-se à nossa causa, uns por simpatia com o movimento, outros militando abertamente no seio das associaçons para a salvaçom nacional. Os raros elementos reaccionários que sobravam, encontravam-se politicamente isolados e sob estreita vigiláncia. Estabelecia-se na base umha espécie de poder de dupla face: os notáveis, antes de irem ao distrito ou à província, vinham pedir as dírectivas ao Comité Viet Minh e, mal regressavam à aldeia, apresentavam-lhe um relatório pormenorizado.

Passava-se o mesmo com os milicianos. Na sua maioria, estavam aglutinados por nós, se é que nom eram mais ou menos simpatizantes. Para travar a escalada revolucionária, as autoridades superiores tinham dado ordem de reforçar a vigiláncia aos escalons subalternos. Cada aldeia possuía dous a três pontos de guarda. Mas como os milicianos e a populaçom local estavam do nosso lado, os postos de guarda do inimigo tornavam-se, de facto, os nossos próprios postos, e um certo número deles servia de passagem nas nossas lides clandestinas de ligaçom.

O movimento atingira igualmente as alturas habitadas pola minoria dos "Man Brancos". Estes montanheses viviam umha vida das mais miseráveis, em regions áridas, dificilmente acessíveis. Estas montanhas escarpadas eram escaladas por raras veredas, muito acidentadas. Os Man, sob a pressom dos colonialistas franceses e dos seus lacaios, mandarins e notáveis, só esperavam umha ocasiom para se revoltar. Manifestaram umha intensa alegria quando vírom pola primeira vez quadros do Viet Minh. Ficaram impressionados ao ver os Kinh, os Tho e os Man, que a política colonialista francesa tinha lançado, outrora, uns contra os outros, unirem-se fraternamente assim que passavam a militar no seio das associaçons para a salvaçom nacional. A organizaçom do Partido eclodiu rapidamente entre eles.

A uniom nacional era um dos traços mais vincados do movimento. Logo nos primeiros dias da luita clandestina, em Cao Bang, organizámos, com êxito, vários encontros amigáveis entre os delegados das diferentes minorias Tho, Man, Mung, Kinh, Chinesa, etc. Algumhas delegaçons de Man tinham efectuado visitas de cortesia no vale. Todas recebêrom um acolhimento caloroso por parte da populaçom local. De volta, essas delegaçons relatavam fielmente as suas impressons de viagem aos compatriotas. Periodicamente, nos vales e nas terras altas, organizávamos pequenas exposiçons de fotografias e gravuras sobre os crimes dos colonialistas franceses e dos fascistas japoneses e sobre a escalada das forças revolucionárias. Nessa ocasiom, mostrávamos as armas e a bandeira da Revoluçom e dávamos-lhes a conhecer a U. R. S. S. e a revoluçom mundial.

Algum tempo depois, o Comité provincial de Cao Bang foi reorganizado. No princípio de Novembro de 1942, tivo lugar o Congresso da Liga Viet Minh de Cao Bang, no decurso do qual foi eleito o Comité provincial. O aparelho de organizaçom da Liga estava a postos, doravante, do escalom da comuna ao da província, passando polo cantom e polo distrito. Nos cantons e distritos "a cem por cento" organizárom-se eleiçons democráticas a partir do escalom comunal. Após o que se formou o Comité interprovincíal de Ca-Bac-Lang (províncias de Cao Bang, Lang Son e Bac San).

Ligávamos a maior importáncia à educaçom política, para disseminar o movimento.

- É preciso primeiro conquistar o povo, dizia o Tio Ho, antes de abordar o problema da insurreiçom.

Para alargar e consolidar as organizaçons de base, abriram-se numerosos cursos de formaçom política acelerada nos diversos distritos. Mas os militantes de base gostavam pouco de abandonar as suas vilas e aldeias: isso prejudicava os trabalhos nos campos, sem contar que se arriscavam a ficar "queimados". Para superar estas dificuldades, os "instrutores" foram organizados em equipas móveis. Cada localidade tinha de preparar um centro clandestino, fonge da aldeia, onde os militantes fossem, por turnos, com víveres, para seguir cursos, durante cinco a sete dias. Ao fim de um certo tempo, quase todos os militantes das aldeias tinham passado por estes estágios. O Comité interprovincial decidiu abrir novos cursos a nível superior destinados a receber rapazes e raparigas que nom figessem parte dos Comités executivos das organizaçons de base. Eram numerosos os elementos de confiança que, nas associaçons para a salvaçom nacional, pediam para frequentar estes cursos. No final de cada estágio, invariavelmente, organizávamos umha pequena festa de amizade, para a qual eram convidados os delegados de todas as camadas da populaçom: cantava-se, dançava-se, hauriam-se novas forças para as tarefai futuras.

O Tio Ho ensinava directamente aos militantes e, às vezes, aos camponeses, na vizinhança do P. C. Os militantes locais, à parte um pequeno número, nom conheciam a língua vietnamita. As mulheres, sobretudo, ignoravam-na completamente. O Tio Ho recomendou-nos, portanto, com a maior instáncia, que aprendêssemos o Tho. Com os Man Brancos tínhamos mesmo de recorrer ao desenho para fazer compreender as nossas ideias. Para fazer compreender que franceses e japoneses exploravam o nosso povo, representávamos um francês 0 um japonês batendo em vietnamitas ou um camponês esmagado sob o peso dos impostos e dos trabalhos. Desenhávamos também um Kinh, um Man e um Tho caminhando de mao dada, para sublinhar a necessidade da uniom nacional contra o invasor. Só mais tarde é que as minorias Man tivérom a sua própria escrita. O conteúdo destes cursos era muito simples: depois da exposiçom sumária da situaçom nacional e internacional, nós explicávamos por que razom devíamos travar a luita contra os franceses e os japoneses; falamos depois da preparaçom para a insurreiçom armada, da organizaçom das associaçons para a salvaçom nacional, dos destacamentos de autodefesa, e, por fim, dos cinco pontos do trabalho clandestino. Ensinávamos, assim, a maneira de presidir às reunions, de usar da palavra em público, etc. ...

Eu era responsável por um desses grupos de instrutores. O nosso campo de actividades estendia-se sobre as regions de Hoa An e Nguyen Binh, povoadas de minorias Man Brancos. Todos estes cursos políticos obtivérom um grande sucesso. Aconteceu-me, todavia, um acidente de que sempre me recordarei. Julguei proceder bem, explicando aos militantes, fora do programa habitual, as quatro contradiçons da conjuntura internacional. Depois da última liçom, um dos melhores elementos, a que dávamos o nome de De Tham, levantou a mao para pedir a palavra:

- Pido-lhe que me autorize a retirar-me da Associaçom.

- Mas entom porquê, camarada?

- Eu estou pronto para fazer na Liga todo o que me for pedido. Mas esses estudos som muito difíceis. Nom consigo meter todo isso na cabeça e tenho receio de nom estar à altura.

Eu acabava de receber umha boa liçom: tinha-me esforçado por compor um programa de fácil compreensom, que correspondesse ao nível dos meus alunos, e eis que o camarada De Tham pedia para nos abandonar, porque eu tinha acrescentado ao meu curso... as quatro contradiçons...

Por fins de 1941, o Tio Ho deu ordem, de Pac Bo, para organizar o primeiro destacamento armado de Cao Bang. O grupo compreendia os camaradas Hoang Sam, Bang Giang, Le Tie Thung, Duc Thanh, Tho An, etc..., sob o comando do camarada Le Quang Ba. O destacamento tinha por missom assegurar a protecçom do P. C, consolidar e manter a rede de comunicaçons, ao mesmo tempo que participava na formaçom militar dos milicianos de autodefesa e dos milicianos de choque.

Nas regions conquistadas polo movimento revolucionário, a populaçom, que aderia em massa às associaçons para a salvaçom nacional, organizou entre os jovens alguns destacamentos de autodefesa. O problema da formaçom militar punha-se imperiosamente. De todos os lados se reclamavam quadros militares, de que carecíamos cruelmente. Aqueles de entre nós que possuíam alguns rudimentos tivérom, portanto, de participar nesse trabalho. Tal foi o caso dos camaradas Triet Hung, Le Quang Ba, Hoang Sam e Cap. Foi preciso pensar em escrever umhas brochuras. O Tio Ho redigiu um texto sobre a táctica de guerrilha, em termos simples, fáceis de compreender. O Comité interprovincial, por sua parte, deu ordem para compor o programa de formaçom militar e decidiu adoptar instruçons unificadas. Nom era umha tarefa fácil, porque era inteiramente nova para nós. Quando, por falta de prática de comando, o simples facto de escandir "um, dous" embaraça os monitores, que dizer entom da tropa?

O movimento do treino militar tomou um grande impulso. Cada período durava de cinco a sete dias, sempre que os trabalhos do campo o permitiam. Assim que as organizaçons de autodefesa recebêrom todas a instruçom militar, levantárom-se destacamentos de autodefesa e de assalto, cujos membros foram escolhidos entre os milicianos mais corajosos. Pode-se dizer que nas aldeias "a cem por cento" todos os jovens, praticamente, entrárom nas formaçons de autodefesa e seguírom um ou mesmo dous períodos de treino. Cada aldeia contava umha ou duas secçons de autodefesa e de assalto, bem organizadas e bem treinadas.

Ao mesmo tempo, o Comité interprovincial organizava cursos para formaçom de quadros militares. Estes cursos duravam, em geral, um mês, com cinqüenta a sessenta alunos em cada promoçom.

Apesar de todos os entraves nascidos do próprio facto da clandestinidade, as escolas edificadas na floresta nom eram isentas de envergadura. Qual nom foi a estupefacçom do inimigo quando conseguiu descobrir a localizaçom da escola militar da terceira promoçom do cantom de Kim Ma; encontrou grandes edifícios, cobertos de folhas de palmeira, bastante vastos para abrigar centenas de pessoas. Nom faltava nada: anfiteatro, dormitórios, refeitórios, salas de armas, terrenos de exercícios de cinqüenta, sessenta lances... No fim de 1943, na regiom de Nuoc Nai, no distrito de Hon An, pôde-se assistir em pleno dia a revistas de tropas e a manobras que compreendiam quatrocentos e quinhentos combatentes, às vezes mesmo mil, numha regiom que englobava vários cantons. Este rápido crescimento das Forças Armadas traduz bem o ambiente entusiástico que preludiava a insurreiçom geral.

O abastecimento de armas e muniçons punha um problema de nom menor gravidade. Cada miliciano da autodefesa devia arranjar a sua própria arma: sabre, punhal, carabina de caça ou espingarda. Em certos sítios, era a própria populaçom que, através de peditórios, comprava na China mosquetes de fabrico local. Cada miliciano também se devia munir com um rolo de corda para se treinar na captura dos traidores. O Comité interprovincial decidiu instalar umha forja para experimentar fabricar granadas e minas. Esta oficina, colocada sob a responsabilidade do camarada Cap, agrupava cinco ou seis operários. As matérias-primas eram fornecidas pola populaçom loca), que enviava pratos de cobre, marmitas de ferro fundido ou bacias de folha. A escolha de localizaçom foi delicada: decidimo-nos, por fim, por um vale encaixado atrás da cadeia do Blockhaus Vermelho, o que abafava os ruídos dos martelos na bigorna. Depois de alguns meses de experiências arrazantes, a primeira mina viu a luz do dia. Na experiência, cada umha das partes que a constituía, tomada separadamente, revelou-se plenamente satisfatória. No dia J. os camaradas Vu Anh e Tong convidárom-me para vir ver explodir a mina. O local escolhido era próximo da forja, num circo de altas falésias rochosas. A mina foi colocada numha cavidade, no sopé da montanha, enquanto que os espectadores se instalavam nos cimos, atrás de grandes rochedos, para se proteger dos estilhaços. Umha corda de cem metros comandava a explosom. Nós esperávamos, com o coraçom palpitante. O camarada Cap gritou: "Fogo!" Nós tínhamos os olhos fixados na mina. Libertou-se um pouco de fumo... depois, mais nada... Nem a menor explosom.

Um camarada das minorias Tho desatou a rir e gritou no seu dialecto: "Te nang du Ty" (continua sentada no sítio).

Assim falhou o nosso primeiro ensaio.

Mas o camarada Cap nom se desencorajou. Continuou encarniçadamente as pesquisas e acabou por conseguir.

Esta famosa forja funcionou até à Revoluçom de Agosto e foi ampliada com o andar do tempo: tornou-se a oficina de armamento Sam Lon, que prestou imensos serviços durante a resistência, fornecendo regularmente a frente com armas e muniçons. A forja do Blockhaus Vermelho foi, por assim dizer, a nossa primeira oficina de armamento.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Passagens da Guerra Revolucionária: uma revolução que começa


E começamos nossas recordações...


Por Comandante Che Guevara

A história da agressão militar que se consumou no dia 10 de março de 1952-golpe incruento dirigido por Fulgêncio Batista- não começa, naturalmente, no mesmo dia da quartelada. Seus antecedentes teriam que ser procurados muito atrás, na história de Cuba: muito mais atrás que a intervenção do embaixador norte-americano Summers Welles, no ano 1933; ainda mais atrás que a Emenda Platt, do ano 1901; mais atrás que o desembarque do Narciso López, enviado direto dos anexionistas norte-americanos, até chegar à raiz do tópico no tempo de John Quincy Adams quem no começo do século dezoito anunciou a constante da política do seu país com respeito a Cuba: uma maçã que, desmembrada da Espanha, devia cair nas garras do Uncle Sam infelizmente. Elas são elos de uma cadeia longa de agressões continentais que nao se exercem somente sobre Cuba.

Esta maré, este fluir e refluir do marulho imperial, se marca pelas caídas de governos democráticos ou pelo surgimento de novos governos ante o impulso incontido das multidões. A história tem características parecidas em toda a América Latina: os governos ditatoriais representam uma pequena minoria e eles ascendem por um golpe de estado; os governos democráticos de ampla base popular ascendem laboriaosamente e, muitas vezes, antes de assumir o poder, já estão estigmatizados pela série de concessões pré-vias que tiveram que fazer para manter-se. E, embora a Revolução cubana marque neste sentido, uma exceção em toda a América, era preciso especificar os antecedentesde todo este processo, pois quem escreve, levado e trazido pelas ondas dos movimentos sociais que convulsionam a América, teve a oportunidade de conhecer, devido a estas causas, outro exilado americano: Fidel Castro.

Conheci-o em uma dessas noites frias do México, e eu me lembro que nossa primeira discussão virou sobre política internacional. Às poucas horas da mesma noite -antes do amanhecer- era eu um dos futuros expedicionários. Mas me interessa aclarar como e porque eu conheci no México o atual Chefe de Governo em Cuba. Foi no refluxo dos governos democráticos em 1954, quando a última democracia revolucionária americana que fica em pé nesta área, a de Jacobo Arbens Guszmán, sucumbia ante a agressão meditada, fria, realizada pelos Estados Unidos da América do Norte atrás da cortina de fumaça da sua propaganda continental.

De lá se voltava derrotado, unido pela dor a todos os guatemaltecos, esperando, procurando a forma de refazer um futuro para aquela pátria angustiada. E Fidel vinha ao México procurar uma terra neutral onde preparar seus homens para o grande impulso. Começava uma tarefa duríssima para os encarregados de treinar essas pessoas, no meio da clandestinidade indispensável no México, lutando contra o governo mexicano, contra os agentes do FBI norte-americano e os de Batista, contra esta três combinações que se conjugavam de um ou outro modo, e onde muito intervinha o dinheiro e a venda pessoal. Além disso, havia que lutar contra os espiões de Trujillo, contra a má seleção feita do material humano-principalmente em Miami-e, depois de conquistar todas estas dificuldades, devíamos alcançar algo importantíssimo: sair.... e, depois... chegar.

Fidel Castro, ajudado por uma pequena equipe de íntimos, dedicou-se com toda sua vocação e seu extraordinário espírito de trabalho à tarefa de organizar as hostes armadas que sairiam em direção a Cuba. Ele quase nunca deu aulas de tática militar, porque o tempo lhe resultava curto para isto. Minha impressão quase instantânea, ao escutar as primeiras aulas, foi a possibilidade de vitória que via muito duvidosa ao alistar-me com o comandante rebelde ao qual me ligava, dede o início, um vínculo de romântico simpatia aventureira e a consideração de que valia a pena morrer em uma praia estrangeira por um ideal tão puro.

Achamos um rancho no México, onde sob a direção do general Bayo -estando eu como cefe de pessoal- se fez o último preparativo, para partir em março de 1956. Porém, por esses dias dois corpos policiais mexicanos, ambos pagos por Batista, estavam à caça de Fidel Castro, e um deles teve a fortuna econômica de detê-lo, cometendo o erro -também econômico- de não matá-lo, depois de fazê-lo prisioneiro. Muitos de seus seguidores caíram em poucos dias mais; também caiu nas mãos da polícia nosso rancho, situado nos arredores da cidade de México e fomos todos à prisão.

Houve quem estivesse na prisão cinquenta e sete dias, contados um a um, com a ameaça perene da extradição sobre nossas cabeças. Mas, em nenhum momento perdemos nossa confiança pessoal em Fidel Castro. E é que Fidel teve alguns gestos que, quase poderíamos dizer, comprometiam sua atitude revolucionária em pró da amizade. Eu me lembro que lhe expus especificamente meu caso: um estrangeiro, ilegal no México, com uma série inteira de incriminações, aliás, eu lhe disse que não devia de forma alguma deter a revolução por mim, e que podia deixar-me; que eu entendia a situação e que trataria de lutar onde eles me mandassem e que o único esforço que devia se fazer era que me enviassem a um país próximo e não à Argentina. Também me lembro da resposta definitiva de Fidel: "Eu não te abandono."E foi deste modo, porque houve que gastar tempo e dinheiro valiosos para tirar-nos da prisão mexicana. Essas atitudes pessoais de Fidel com as pessoas que aprecia são a chave da abnegação que cria ao seu redor, onde se soma a uma adesão de princípios, uma pessoal que faz deste Exército Rebelde um bloco indivisível.

Passaram dias, trabalhando na clandestinidade, nos escondendo onde podíamos, evitando toda a presença pública na medida no possível, quase sem sair à rua. Uns meses depois, descobrimos que havia um traidor em nossas linhas, cujo nome não sabíamos, e que tinha vendido uma remessa de armas.

Uma atividade febril teve que ser desnvolvida a partir desse momento: O Granma foi condicionado a uma velocidade extraordinária; amontoamos quantos viveres adquirimos, muito poucos por certo, e uniformes, rifles, equipes, dois fuzis antitanque quase sem balas. Enfim, no dia 25 de novembro de 1956, as duas da madrugada, começavam a se fazer realidade as frases de Fidel, que tinham servido de zombaria à imprensa oficial: " No ano de 1956 seremos livres ou seremos mártires."

Saimos, com as luzes apagadas, do porto de Tuxpan. Tínhamos muito mau tampo e, embora a navegação estivesse proibida, o estuário do rio se mantinha tranquilo. Cruzamos a boca do portoYucateco, e num momento mais, acenderam-se as luzes. Começamos a procura frenética dos antihistamínicos contra o enjôo, que não apareciam; se cantaram os hinosnacional cubano e do 26 Julho.

A rota eleita abrangia uma volta grande pelo sul de Cuba margeando Jamaica, as ilhas do GRan Caimán, até o desmbarque em algum lugar perto do povo de Niquero, na província de Oriente. Os planos se cumpriram com bastante lentidão: no dia 30 ouvimos pelo rádio as notícias dos motins de Santiago de Cuba que tinham provocado nosso Frank Pais, considerando sincronizá-lo com a chegada da expedição. No dia seguinte, primeiro de dezembro, à noite, púnhamos a proa em linha reta na direção de Cuba, procurando desesperadamente o farol de Cabo Cruz, carentes de água, petróleo e comida. Às duas da madrugada, com uma noite escura, de tempestade, a situação era inquietante. Iam e vinham osvigias, procurando a estela de luz que não aparecia no horizonte. Roque, ex-tenente da marinha de guerra, subiu uma vez mais à pequena ponte superior, para vislumbrar a luz do Cabo, e perdeu o equilibrio, caindo n'água. Momentos depois de reiniciada a marcha, já víamosa luz, mas o asmático caminhar de nossa lancha tornou intermináveis as últimas horas da viagem. Já de dia chegamos a Cuba pelo lugar conhecido como Belic, na praia de Las Coloradas.

Um barco de cabotagem nos viu, comunicando telegráficamente o achado ao exército de Batista. Apenas descemos, com toda a premência e levando o indispensável, nos introduzimos no lamaçal, quando fomos atacados pela aviação inimiga. Naturalmente, caminhando pelos pântanos cobertos de manguezais não éramos nem vistos nem hostilizados pela aviação, mas o exército da ditadura já caminhava sobre nossos passos.Levamos várias horas em sair do lamaçal, onde a imperícia e a irresponsabilidade de um companheiro que disse conhecedor nos lançaram. Ficamos em terra firme, à deriva, dando tropeções, constituindo um exército de sombras, de fantasmas, que caminhavam como seguindo o impulso de algum escuro mecanismopsíquico. Tinham sido sete dias de fome e de enjôo contínuos durante a travessia, somados a três dias mais terríveis, em terra. Aos dez dias exatos da saída do México, no 5 de dezembro de madrugada, depois de uma marcha noturna interrompida pelos desmaios e as fadigas e os descansos da tropa, alcançamos um ponto conhecido paradoxalmentepelo nome de Alegria de Pío.

Até a próxima passagem da guerra revolucionária.... Alegria de Pío


segunda-feira, 21 de julho de 2008

O NASCIMENTO DE UM EXÉRCITO: 1. Cao Bang: Ho Chi Minh volta ao seu país



Por Vo Nguyen Giap

O movimento revolucionário implantou-se rapidamente na província de Cao Bang. A partir de 1929, a Associaçom da Juventude Revolucionária contava aí vários grupos. Mais tarde, quando o Partido Comunista Indochinês foi criado, Cao Bang também tivo as suas células. As organizaçons de base do Partido conseguírom manter-se lá, apesar do terror branco, até a época da Frente popular, em que a chama revolucionária se apoderou das massas. O Congresso Nacional do Partido foi saudado com diversos comícios, enquanto os mineiros de Tính Tuc davam o sinal de luitas reivindicativas. Quando estalou a Segunda Guerra mundial, os colonialistas franceses cedêrom, em toda a linha, perante os fascistas japoneses, mas lançárom o melhor das suas forças contra o movimento revolucionário. Cao Bang conheceu a repressom. Os nossos quadros e os nossos militantes remetêrom-se à clandestinidade e conseguírom, no meio de enormes dificuldades, manter as organizaçons de base e sustentar o movimento.

Nessa hora crítica, o Presidente Ho Chi Minh chegou à regiom fronteiriça sino-vietnamita; encontrou-se lá com um pequeno grupo de emigrados, que incluía os camaradas Phung Chi Kien, Pham Van Dong, Hoang Van Hoan, Vu Anh e eu próprio. Depois do armistício de 1940, em França, o Tio To decidira que o essencial, para nós, era reentrar imediatamente no país, para tomar contacto com o Comité central e espalhar a nossa rede. O que se fijo. Nos primeiros tempos, acantonamo-nos, provisoriamente, em algumhas localidades chinesas, próximas da fronteira. Era umha regiom por onde já passara o Exército vermelho chinês, que lá tinha efectuado um trabalho político muito eficaz. A populaçom revelou-se acolhedora desde que soubo com quem tratava. Fijo mesmo todo para nos auxiliar.

Um certo número de quadros e militantes de Cao Bang -os camaradas Le Quang Ba, Hoang Sam, Bang Giap, etc...- tivérom de se refugiar na China, para escapar às perseguiçons. Tivérom a sorte de encontrar o Tio Ho, que decidira juntá-los ao nosso grupo, para completarem a formaçom política, antes de passarem a fronteira e irem estabelecer as primeiras bases da organizaçom da Liga Viet Minh no país. Este curso político acelerado tivo lugar numha aldeia chinesa, próxima da fronteira. O Tio Ho dedicou-lhe um cuidado meticuloso. Fijo-nos discutir o programa, que foi adoptado em comum. Dividiu, depois, a redacçom de seis ou sete liçons. Tínhamos, previamente, de compor o plano pormenorizado de cada umha destas exposiçons e submetê-lo à discussom colectiva, antes de o desenvolver por escrito. O texto definitivo devia ser reexaminado em comum, no decurso de umha reuniom. O Tio Ho exigia que estas liçons fossem adaptadas ao nível de massas: claras no conteúdo e simples nos termos. Estes cursos viriam a ser impressos, mais tarde, sob o título "O Caminho da Libertaçom".

Este primeiro curso de formaçom política da Liga Viet Minh foi um grande sucesso. Estava-se na véspera da Festa do Tet (Ano Novo lunar. Os militantes franquearam a fronteira, com umha confiança trans-bordante. Depois do Tet, foi a vez do Tio Ho voltar ao país. Estabeleceu o seu P.C. Na gruta do Pac Bo, no seio de um maciço montanhoso, de dous a três quilómetros de largura por cinco ou seis de comprimento, a um quilómetro apenas da fronteira. As minorias Nung, que povoam esta regiom, disseminam-se em minúsculos aglomerados empoleírados no flanco das montanhas ou aninhados nos vales que elas formam. Nom faltava pitoresco ao sítio, com os seus talhons dos arrozais, encas-toados na selva espessa, e as montanhas abruptas. Umha vegetaçom luxuriante mascarava quase completamente a entrada da caverna: mesmo de perto, era difícil dar por ela. Muito profunda, esta caverna encerrava um riacho encantador, cujas águas formavam, a pouca distáncia, umha pequena bacia, como que um lago miniatural. O riacho seguia o seu curso através de umha profusom de rochedos caprichosos, onde grossas estalactites mergulhavam sobre blocos enormes, arredondados pola erosom. Era para lá que o Tio Ho se dirigia, dia após dia, para trabalhar, a menos que nom fosse dar um curso político em qualquer aldeia dos arredores. Para as refeiçons, voltava à gruta. Reinava lá um frio cortante; à noite, felizmente, era possível, serem risco de se ser descoberto, acender umha pequena fogueira.

O Tio Ho, que ligava umha importáncia extrema à vigiláncia, diligenciava sempre que cada um de nós guardasse um segredo absoluto sobre todo o que dizia respeito ao P.C. Ao menor indício de perigo, dava imediatamente ordem de mudar de lugar. Umha vez, mandárom-nos dizer que o inimigo enviara espions para a regiom. O nosso P. C. mergulhou, acto contínuo, ainda mais profundamente na floresta. A nova localizaçom oferecia umha grande segurança. Para a atingir era preciso subir um curso de água, atravessar algumhas cascatas e escalar diversas escarpas. A sede do P.C. Nom passava de umha cabana bem escondida, sob umha profusom de lianas e de grandes raízes. Infelizmente, era tam sombria, mesmo em pleno dia, que, para trabalhar, tínhamos de trepar ao alto da montanha. Mais tarde, sempre por precauçom, o nosso P.C. mudou-se para outra gruta, extremamente exígua, que mal podia abrigar três ou quatro camas. Nos dias de grande chuva, as serpentes e outros animais faziam-nos companhia.

Esta vida de clandestinos acossados era extremamente dura. Para conservar umha boa saúde, condiçom primordial de um bom trabalho, o Tio Ho observava regras muito estritas. Levantava-se muito cedo. Todos os dias era ele, invariavelmente, quem nos acordava. Fazíamos, em conjunto, alguns movimentos de cultura física; depois começava o dia de trabalho. A noite, carecidos de petróleo para os candeeiros, reuníamo-nos em volta de umhas achas a arder. As horas das refeiçons eram também escrupulosamente respeitadas, mas o passadio era bem escasso. A nossa ementa só de longe em longe comportava um pequeno prato de carne, que tínhamos baptizado de "carne à Viet Minh"; eis a receita: um quarto de carne grelhada, cortada e passada, e três quartos de sal grosso. Algumhas vezes, organizávamos umha pescaria para melhorar o rancho.

Bebíamos água da fonte, passada por um filtro improvisado, feito de carvom, calhaus e areia. Apesar destas precauçons, ninguém escapou ao paludismo. O Tio Ho sofria freqüentemente ataques de febre. No momento das crises, recusava repousar, apesar das nossas instáncias, e continuava a presidir às reunions.

Mais tarde, quando o movimento tomou envergadura, o nosso P. C. deslocou-se para Lam Son, perto de Nuoc Hai, no fundo de um vale encastoado numha cadeia de montanhas, de acesso extremamente difícil.

Chamávamos a esse lugar o "Blockaus vermelho", porque estava rodeado de montanhas avermelhadas e servia há muito tempo de ponto de encontro dos revolucionários. O Tio Ho conservava sempre o mesmo modo de vida, todo simplicidade e frugalidade. A estadia nas grutas e na selva minara-lhe a saúde. Quando a situaçom evoluía favoravelmente, o abastecimento melhorava e a nossa vida material tornava-se quase satisfatória. Mas quando o inimigo intensificava a repressom, o nosso P. C. mergulhava mais profundamente na floresta e o abastecimento tornava-se difícil. Aconteceu-nos, mais que umha vez, refugiarmo-nos entre as minorias "Man Brancos" que, por carência de arroz, só se aumentavam de milho. Nós próprios, durante longos meses, comemos sopa de milho. A saúde do Tio Ho declinava visivelmente. Mas, durante toda esta permanência no Viet Bac, nunca o Tio Ho esteve tam doente como depois do golpe de força dos japoneses em 1945. Já tínhamos libertado umha vasta zona, que se alargava constantemente. Tínhamos descido com o Tio Ho de Cao Bang até Tan Trao. Era no mês de Julho de 1945, no período febril de preparaçom do Congresso nacional, decidido polo Comité central. O P.C, do comando provisório da zona libertada, encontrava-se instalado numha casa sobre estacas da aldeia de Tan Trao, perto de umha grande "figueira da índia", que haveria de ficar histórica. Eu era responsável pola permanência do P.C. O Tio Ho habitava umha pequena cabana aninhada no flanco da montanha, na proximidade da aldeia.

A longa marcha que o Tio Ho tivera de efectuar para ir de Cao Bang a Tan Trao devia-o ter esgotado. Caiu gravemente doente, após um período de grande abatimento; a febre nom o abandonara. A princípio, ainda podia engolir um pouco de sopa de arroz. Depois, foi ficando reduzido à farinha de arroz dissolvida na água. Algumhas vezes delirava. Ainda que a nossa provisom de medicamentos tivesse melhorado, só possuíamos, em última análise, alguns comprimidos de quinino e umhas ampolas de óleo canforado. Dia após dia, eu apresentava-me na cabana para fazer o meu relatório. O seu estado angustiava-me. Mas cada vez que me preocupava com a sua saúde, ele tranquilizava-me e insistia em que voltasse para o P. C, para dar andamento aos assuntos ope-rantes. No sétimo dia da doença, encontrei-o pior. Despediu-me, como de costume, depois de eu apresentar o relatório. Pretextando que nom tinha qualquer assunto urgente à espera, insisti em ficar com ele. Sem dúvida que tinha consciência do estado em que se encontrava - aceitou. Durante a noite, acordou várias vezes, chamando-me de cada vez. Tivem a confusa percepçom que me queria comunicar cousas capitais, antes que fosse demasiado tarde ...

Com a sua voz calma, destacando cada palavra, disse-me: "Neste momento, a conjuntura nacional e internacional é-nos extremamente favorável. O nosso Partido nom deve deixar passar a ocasiom. Devemos tomar a direcçom da luita nacional para a conquista da independência, custe o que custar, mesmo que toda a cordilheira vietnamita tenha de ser pasto de chamas." Interrompeu-se um momento para retomar fôlego e prosseguiu:

- Quando o movimento revolucionário ganha terreno, como hoje, é nessa altura, precisamente, que é necessário velar pola consolidaçom dos alicerces: reforçar ideologicamente os elementos seguros, formar os quadros, é preciso abrir cursos acelerados, a fim de formar a tempo os militantes locais e preocuparmo-nos particularmente em organizar células, de forma a poder manter o movimento nas horas críticas. Quanto à luita armada, desde que as circunstáncias se tornem favoráveis, será necessário prossegui-la resolutamente e ampliá-la, sem esquecer a consolidaçom das bases, para fazer face a qualquer eventualidade.

Estas recomendaçons soavam como últimas vontades. Figem imediatamente um relatório pormenorizado sobre o estado do Tio Ho ao Comité central. Pedia, ao mesmo tempo, a todos os camaradas que consultassem a populaçom local. Os velhos da aldeia acorrêrom em nosso socorro. Dérom-nos o endereço de um médico tradicional, reputado pola cura deste gênero de febre. Nessa mesma noite enviou-se um emissário ao médico, que chegou no dia seguinte, de manhá. Tomou o pulso do doente e foi à floresta, onde desenterrou umha espécie de tubérculo. Mandou-o queimar e deitar as cinzas numha tijela de sopa de arroz, que obrigou o doente a engolir. O Tio Ho nom tardou em sentir-se melhor e, alguns dias depois, estava completamente restabelecido.

Pode-se calcular a nossa alegria. Mas nunca chegamos a saber o nome do tubérculo miraculoso que curou tam rapidamente o Tio Ho.

Voltemos agora a Cao Bang, na altura em que o Presidente permanecia em Pac Bo. Os camaradas Phung Chi Kien e Vu Anh já lá se encontravam. O camarada Lam (nome de guerra de Pham Van Dong), o camarada Li (nome de guerra de Hong Van Hoan) e eu próprio, em missom em Tsin Si (China), fazíamos a ligaçom entre esta cidade e Kuei Lin. íamos, freqüentemente, a Pac Bo para apresentar os nossos relatórios ao Tio Ho e receber instruçons. De tempos a tempos, ele vinha ao nosso encontro, acompanhado do camarada Phung Chi Kien, num sftio situado a meio caminho entre Bac Bo e a nossa residência. Resistente como era, podia percorrer dezenas de quilómetros a pé, numha só tirada. Certa vez, encontrámo-lo. conforme o combinado, no nosso ponto de encontro, situado num mercado da China. Um dos nossos camaradas, que acabava de atravessar a fronteira, anunciou-lhe:

- O camarada X foi preso!

Sem parecer preocupar-se com a notícia, o Tio Ho convidou-nos para entrar numha locanda e mandou vir a refeiçom. Foi somente depois de ter comido que deu início à reuniom projectada. Tomou a palavra, em primeiro lugar, dirigindo-se ao mensageiro:

- fai agora o teu relatório. Aconteça o que acontecer, nom se deve perder o sangue frio.

Todas as vezes que voltávamos ao P. C. Para encontrar o Tio Ho tínhamos sempre a sensaçom de estar em casa.

- O Partido, dizia ele muitas vezes, é a grande família dos comunistas.

Nas horas de impulso do movimento, os militantes que traziam consigo a ebuliçom febricitante dos órgaos de base encontravam junto dele a atmosfera serena, que lhes fazia lembrar imediatamente que a luita ainda seria longa. Nas horas sombrias, quando o inimigo semeava o terror entre a populaçom em pánico, eles continuavam a encontrar nesse lugar, ao regressarem das respectivas missons, essa mesma atmosfera serena, da qual emanava umha confiança inquebrantável. Liçom preciosa: nas horas tristes, nada de pessimismo, nas horas do triunfo, nada de optimismo eufórico. O Tio Ho conseguiu, maravilhosamente, comunicar-nos a sua própria e inabalável fá na vitória da revoluçom.

- Fazer a revoluçom, dizia ele, é um trabalho de largo fôlego, um trabalho que exige tenacidade e perseverança. Qualquer decisom pede madura reflexom e nom deve ser tomada de ánimo leve.

Nesta conformidade, em geral, à volta das missons, se nom havia soluçom urgente a tomar, observávamos a seguinte regra de trabalho: o Tio Ho punha o problema em debate e concedia-nos um determinado tempo de reflexom. Em seguida, tinham lugar o conselho e as discussons. As suas directivas eram sempre muito precisas e muito práticas. E quando, após minuciosas discussons, adoptávamos as resoluçons finais, exigia que as realizássemos a todo o custo. Insistia também em controlar efectivamente o nosso plano de trabalho, qualquer que fosse a sua importáncia. Da minha permanência junto dele, retive este ensinamento: para fixar a linha da revoluçom é necessário ter umha noçom do conjunto e de longe, mas, no momento de passar à execuçom, é preciso prestar umha grande atençom aos mínimos detalhes de ordem prática. Negligenciar os pormenores é comprometer as grandes linhas.

Assim que o P. C. se estabeleceu em Pac Bo, o Tio Ho deu imediatamente ordem para fazer aparecer o Viet Lap (Vietname Independente). Este jornal saía clandestinamente umha vez por semana, em duas páginas de formato pequeno. Os artigos, curtos e simples, eram impressos em grandes caracteres, em litografia. Como os julgássemos demasiado curtos e demasiado simplistas, propusemos enriquecer-lhes o conteúdo e utilizar caracteres mais pequenos para melhorar a apresentaçom e aumentar o número dos artigos. Mas o Tio Ho tomou a defesa da preferência por artigos curtos, em caracteres grandes. Com a experiência, nom tardamos a constatar a eficácia do Viet Lap no nosso trabalho de propaganda e organizaçom. A influência do jornal nom provinha só da justeza da linha política mas também da simplicidade da forma: a primeira condiçom para despertar a consciência das massas e fazê-las progredir era abordar os problemas que as tocassem profundamente, em termos que elas pudessem compreender.

Com a continuaçom, o jornal fijo progressos, apareceu com quatro páginas e melhor apresentaçom. Estava destinado a alcançar um grande sucesso junto da populaçom.

O Tio Ho ligava umha grande importáncia à formaçom ideológica dos quadros. Traduzira para vietnamita a História do Partido Comunista (bolchevik) da U.R.S.S. Ele próprio dactilografara esta traduçom em alguns exemplares, que nos serviam como documentos para os nossos estudos.

Ele continuava, todavia, em estreito contacto com a populaçom local; ia freqüentemente visitar os velhos e ensinar a ler os mais jovens. Gostava muito de crianças. Com a sua veste anilada, à moda das minorias "Tho", poderia ser tomado por um camponês da regiom. O povo chamava-lhe respeitosamente "ong ke", qualificaçom reservada aos anciaos da aldeia.

No mês de Março de 1941, o Tio Ho presidiu, em Pac Bo, à 8.' Conferência ampliada do Comité central- Esta reuniom viria a tomar decisons históricas. Ao definir a linha do Partido, ela fijo da libertaçom nacional o objectivo n.° 1 para todo o povo. Decidiu igualmente a organizaçom da Liga para a Independência do Vietname (Viet Minh) e escolheu as duas bases de Bac Son-Vu Nhaí e de Cao Bang, como centros de preparaçom para a insurreiçom armada no Viet Bac.